sábado, 29 de março de 2014

Poemas de Lêdo Ivo

Ás vezes, não basta ter ideias, ter cabeça aberta.
É preciso, também, saber lutar por elas, saber defendê-las.
Nunca se calam os idealistas, 
porque todas as precauções ditatoriais são sempre...




 Precauções inúteis

Quem tapa minha boca
não perde por esperar:
o silêncio de agora
amanhã é voz rouca
de tanto gritar.

Quem tapa meus olhos
nada esconde de mim.
Sei seu nome e seu rosto,
o lugar em que estou,
sua noite sem fim.

Quem tapa meus ouvidos
me faz escutar mais.
Igualei-me às muralhas
e o silêncio mais fundo
guarda o rumor do mundo.

Quem me quer sem memória
erra redondamente.
Lembro-me de tudo
E, cego, surdo e mudo,
até do esquecimento.

E quem me quer defunto
confunde verão e inverno.
Morto, sou insepulto.
Homem, sou sempre vivo.
Povo, sou eterno.


§ § §

Primeira lição

Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler.

Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
E aprendeu a amar.

E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes.

Um dia num muro
Ivo soletrou
a lição da plebe.

E aprendeu a ver.
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?

Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo.

Na escola primári
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler.

Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
E aprendeu a amar.

E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes.

Um dia num muro
Ivo soletrou
a lição da plebe.

E aprendeu a ver.
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?

Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo.


Lêdo Ivo



(Maceió, 18 de fevereiro de 1924 − Sevilha, 23 de dezembro de 2012)


Nenhum comentário:

Postar um comentário