segunda-feira, 21 de abril de 2014

A lenda da cidade canibal

Fernanda Pugliero



Antiga Rua do Arvoredo, hoje Fernando Machado. A casa de Ramos ficava nos fundos do antigo Palácio do Governo – substituído anos depois pelo atual Palácio Piratini.

Um dos maiores mistérios de Porto Alegre completou 150 anos na última sexta-feira, 18 de abril de 2014. A história do açougueiro (1) que teria matado homens e os vendido em forma de linguiça até hoje continua viva como uma das mais conhecidas lendas urbanas da Capital. José Ramos, filho de imigrantes alemães, oriundo de Santa Catarina, foi preso pela Polícia no dia 18 de abril de 1894, após serem encontrados três corpos – um já em estado avançado de decomposição – em sua casa.

Ele vivia na Rua do Arvoredo, hoje chamada de Fernando Machado, no Centro. Sua companheira, Catarina Palsen (2), imigrante húngara, foi acusada de ser cúmplice dos assassinatos. Os dois foram julgados e condenados à prisão.

Ramos acabou morrendo cego ainda preso. Catarina ficou reclusa por 13 anos. Depois de solta passou a perambular pelas ruas da cidade vendendo vassouras sem cabo e acusando os habitantes de canibalismo. Morreu de Câncer por volta de 1920.

Verdade ou lenda, fato é que a história da cidade forçada ao canibalismo por consumir as famosas linguiças do açougue de Ramos (3) se perpetuou por gerações. O caso, que abalou a sociedade porto-alegrense na época, repercutiu na mídia local e internacional. O jornal O Mercantil, que circulou em Porto Alegre de 1849 a 1865, publicou pelos menos três reportagens sobre o caso, relatando a descoberta dos crimes, os primeiros interrogatórios e o tumulto da população, que se revoltou ao cogitar a possibilidade de ter cometido canibalismo e queria linchar o casal em praça pública. A notícia se espalhou também em jornais do Uruguai, da França e da Alemanha.

No livro “Porto Alegre Ano a Ano”, o historiador, jornalista e advogado Sérgio da Costa Franco diz que o desaparecimento de um comerciante e seu empregado levaram a Polícia a efetuar diligências na casa de Ramos, que ficava nos fundos do antigo Palácio do Governo – substituído anos depois pelo atual Palácio Piratini. “Na busca oficial, realizada pelo chefe de Polícia Dário Callado, em 18 de abril, descobriram-se, em um poço do quintal, os cadáveres do comerciante Januário Martins Ramos da Silva e de seu caixeiro José Inácio de Souza Ávila”, conta Franco. No porão da casa, onde teriam sido mortos os homens depois transformados em linguiça, foi descoberto o corpo do açougueiro alemão Carlos Klaussner, (4) sócio de Ramos no negócio.

O autor, que já leu diversos livros e pesquisas sobre o tema, descarta totalmente a ideia de que os porto-alegrenses tenham consumido carne humana. “Nunca se fez linguiça de gente. Basta ver os corpos que foram encontrados na casa e outros cadáveres que foram achados depois, fora da casa. Ramos matava para roubar”, afirma Franco.

Segundo ele, a lenda surgiu por causa do ofício de Ramos. (5) “Morreu gente na casa dele, e as pessoas saíram falando que as linguiças vendidas no açougue (6) eram de carne humana.”

Nunca se soube ao certo se Ramos matava as vítimas para fazer linguiça ou para roubá-las. Apesar de apenas três cadáveres terem sido localizados dentro da residência, a lenda diz que Catarina seduzia forasteiros – cujo desaparecimento passaria despercebido – até a sua casa. Esses homens eram golpeados com uma machadinha por Ramos. Segundo a historiadora Sandra Pesavento, que morreu em 2009, Catarina era conhecida como “Come gente”.

Em “O Maior Crime da Terra”, o historiador e jornalista Décio Freitas, falecido em 2004, afirma que nunca houve um açougue em Porto Alegre que teria vendido carne humana. Segundo ele, a história surgiu a partir de rumores populares, grande parte fruto do ressentimento dos luso-brasileiros contra os imigrantes alemães, que começaram a desembarcar no Rio Grande do Sul no início do século XIX. Freitas questiona o fato de que não seria fácil desossar um corpo humano para fazer linguiças e que não haveria tecnologia na época para tanto. Ele questiona ainda o que teria acontecido com os ossos das vítimas. Para Franco, que era amigo de Freitas, o autor exagerou em denominar o caso da Rua do Arvoredo de “o maior crime da Terra”. ”O Décio (Freitas) era meu amigo, mas em matéria de história ele era ruim e escreveu bobagem. Ele misturava ficção com história. Quis fazer um romance com o caso e exagerou”, aponta.

Para Franco, a obra definitiva sobre o caso é “História Devorada”, do historiador e professor da Unisinos Cláudio Pereira Elmir, publicada 2004. No livro, Elmir relata a história dos crimes cometidos por Ramos em 1863 e 1864, acompanhando seu deslocamento. A partir de documentos históricos e do inquérito policial do caso, o autor monta um quebra-cabeça sobre o que teria acontecido na Rua do Arvoredo. Ele leva a entender que descarta a hipótese da existência de linguiças de carne humana, reproduzindo escritos da época.

Os assassinatos cometidos por Ramos (7) e Catarina – que, alguns dizem, apenas seduzia os homens, testemunhou suas mortes e limpou o sangue que sujou o piso da casa – foram descobertos graças a um cão. O menino caixeiro, última vítima do açougueiro, (6) tinha um animal, que não deu sossego à Rua do Arvoredo desde que o dono entrou na casa do casal – e não saiu. Vizinhos chamaram a Polícia, que acabou descobrindo os cadáveres.

(Correio do Povo de 21.04.2014)

Notas numeradas:

(1)   Ele não era açougueiro e, sim, informante ligado ao chefe de Polícia;

(2)   Palse no inquérito;

(3)   Ele não tinha açougue, quem tinha era Carlos Klaussner, que sabia dos crimes, por isso foi assassinado;

(4)   Este, sim, era açougueiro, estabelecido na Rua da Ponte, atual Rua Riachuelo;

(5)   Referido no item 1;

(6)   Klaussner seria a pessoa que descartava os ossos das vítimas, mas não há certeza disso;

(7)   José Ramos faleceu na Santa Casa de Misericórdia em 1º de agosto de 1893.

Final

A principal fonte sobre os crimes de José Ramos está nos três processos judiciais instaurados. O primeiro processo, referente ao assassinato de Januário e seu caixeiro, já havia desaparecido do Arquivo Público do Estado em 1948 e dele não se conhece nenhuma cópia. O segundo processo, sobre o assassinato do açougueiro Klaussner, pode ser encontrado no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul e foi transcrito na publicação Os crimes da rua do Arvoredo (Porto Alegre, 1993). O terceiro processo, que versa sobre o assassinato de seis pessoas e a fabricação de lingüiça de carne humana, desapareceu do Arquivo Público do Estado depois de 1948. No Arquivo Nacional, há cópias do segundo e do terceiro processos.


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