segunda-feira, 14 de abril de 2014

A morte de Sócrates





Época: 399 a. C.


Sócrates era, segundo o Oráculo de Delfos, o homem mais sábio da Grécia. Provavelmente era até mais do que isso, o maior filósofo de todo o mundo antigo. Jamais escreveu uma só palavra a respeito de sua vida e idéias. Tudo o que se sabe foi escrito por seu discípulo Platão, que era o segundo para o mestre em sabedoria, e por Xenofonte.

Quando Atenas perdeu a Guerra do Peloponeso, os atenienses conservadores procuram um bode expiatório. Há muito que tinham um grande ressentimento contra Sócrates, por ter implantado a impiedade entre os jovens, assim como o ceticismo pelas instituições tradicionais e a importância da família. Decidiram livrar-se dele. Pelas leis atenienses qualquer cidadão podia acusar um vizinho de crime e leva-lo a julgamento perante o Tribunal de Heliasts. Três inimigos de Sócrates resolveram tomar tal iniciativa. Os acusadores dele foram Meletus, Lycon e Anytus, cujo filho era um dos discípulos de Sócrates. A acusação dizia: “Sócrates é culpado de não acreditar nos deuses em que a cidade acredita e de introduzir divindades novas. É também culpado de corromper os jovens. A pena é a de morte.”

Sócrates foi julgado por um júri de 501 cidadãos, todos com mais de 30 anos de idade. Não houve advogados. Os acusadores se levantaram, um depois do outro, dirigindo-se ao júri, no tempo limitado por um relógio de água. Depois, Sócrates levantou-se para a sua defesa.

- Com mais de 70 anos de idade, é a primeira vez que compareço a um tribunal de justiça. Assim sendo, desconheço inteiramente a maneira como se deve falar neste tribunal.

Mais adiante ele disse:

- Se estou corrompendo alguns jovens e já corrompi outros, então alguns dos que aprenderam comigo e que agora são mais velhos deveriam comparecer a este tribunal, para depor contra mim e pedir minha punição, recordando os maus conselhos que receberam.

Os jurados finalmente votaram, depositando o voto numa urna. O resultado final foi o seguinte: Culpado – 281; Inocente – 220. O júri tinha agora que determinar a punição. Meletus voltou a insistir pela pena de morte. Sócrates sugeriu que a pena fosse uma das mais altas honrarias concedidas pelo Estado, a manutenção às expensas públicas no Pritaneu, pelo resto de sua vida. Furioso com tal zombaria, o júri votou em peso a favor da pena de morte, 361 a 140. Sócrates foi condenado a morrer dentro de um mês, tomando uma taça de cicuta.

Testemunho histórico

Entre os que estiveram com Sócrates nas horas finais, passadas na prisão de Filius, 90 quilômetros a oeste de Atenas, estava Faedo, um antigo escravo libertado pelos amigos do mestre e que se tornara um dos principais discípulos dele. Faedo relatou para Platão a cena seguinte, quando o carcereiro foi procurar Sócrates com a taça de cicuta:

E Sócrates disse então:

- Você, meu bom amigo, que é experiente em tais assuntos, deve orientar-me quanto à maneira pela qual devo proceder.

- Basta que fique andando até sentir as pernas extremamente pesadas. Deite-se quando isso acontecer e o veneno irá então agir.

Depois de dizer isso, o homem estendeu a taça a Sócrates. E tranquilamente, sem qualquer demonstração de medo, sem mudar de cor nem de expressa, fitando o homem nos olhos, como era seu hábito, Sócrates pegou a taça e disse:

- Tenho permissão para fazer uma libação com esta taça a algum deus?

- Nós nos limitamos a preparar o que é necessário para que se cumpra a sentença, Sócrates.

- Eu compreendo. Mas posso e devo rezar aos deuses para que favoreçam minha jornada deste mundo para o outro. E que os deuses me concedam tal desejo!

E levando a taça aos lábios, numa atitude jovial, Sócrates tomou o veneno.

Até esse momento, quase todos nós havíamos conseguido controlar o pesar que nos dominava. Mas quando o vimos beber o veneno até a última gota, não mais nos pudemos conter. Apesar de toda a minha resistência, as lágrimas começaram a escorrer pelas faces...

Sócrates foi o único que manteve a serenidade e disse:

- Mas que estranho alarido é esse? Mandei as mulheres embora para que não ofendessem a solenidade do momento com uma atitude assim, pois sempre ouvi dizer que um homem deve morrer em paz. Fiquem quietos, por favor. Tenham paciência...

Ele ficou andando de um lado para outro até sentir, como disse, que suas pernas iriam faltar-lhe. Deitou-se então de costas, conforme as instruções. O homem que lhe entregara o veneno foi examinar-lhe os pés e as pernas. Apertou o pé de Sócrates com toda a força e perguntou-lhe se sentia alguma coisa. Sócrates respondeu:

- Não.

O homem apertou a perna, cada vez mai alto, mostrando-nos que Sócrates já estava começando a ficar frio e rígido. E finalmente declarou:

- Quando o veneno chegar ao coração, estará tudo acabado.

Sócrates já estava começando a ficar frio na virilha quando descobriu o rosto, que cobrira pouco antes, e disse (foram as suas últimas palavras):

- Crito, devo um galo a Asclepsius. Irá lembrar-se der pagar a dívida por mim?

- A dívida será paga – afirmou Crito. – Deseja mais alguma coisa?

Não houve resposta. Um ou dois minutos depois, ouvimos o som de movimento. Os atendentes descobriram-lhe o rosto. A boca estava entreaberta. Crito fechou os olhos e a boca de Sócrates.



(Do livro “Almanaque para todos” 
de Irving Wallace e David Wallechinsky)


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