domingo, 13 de abril de 2014

A música do Rio Grande


A obra mais lembrada por músicos, jornalistas e pesquisadores no Rio Grande do Sul é Prenda Minha. Mas o caminho foi longo e tortuoso até que ela fosse assumida pelo folclore gaúcho.

O primeiro registro da famosa estrofe “Vou-me embora, vou-me embora, prenda minha...” data de 1880, feito por Carlos Von Koseritz. Segundo o livro Assim Cantam os Gaúchos (1984), a melodia teria sido recolhida por Teodomiro Tostes, ainda nos anos 20, a partir dos acordes de um velho gaiteiro.

A origem da toada mais conhecida no Rio Grande estaria no refrão de origem açoriana: “Tirana, atira, tirana / vem a mim, tira-me a vida: / A prenda que eu mais amava / Já de mim foi suspendida”. Mas, para se afirmar no imaginário rio-grandense, Prenda Minha teve de pegar o trem da revolução de 30 e ir até o Rio. Foi de lá, popularizada pela colônia gaúcha impressionada com os registros que Mário de Andrade fez de Prenda Minha em seu livro Ensaio sobre Música Brasileira, que a música voltou para o seu pago e ganhou popularidade, ainda que não tanta quanto a que atingiu no Rio. A primeira gravação aparentemente foi feita em 1935, pelo selo Victor, nas vozes de Almirante e Paulo Tapajós.

De lá para cá, Prenda Minha se assumiu cada vez mais como de domínio público. Já foi gravada por Almirante, pelos Araganos, pelo Conjunto Farroupilha, por Kleiton e Kledir, catalisou parcerias surpreendentes como de Borghetinho e Milton Nascimento, ganhou interpretação do sambista Wilson Paim, Grupo Caverá, Inezita Barroso, Agnaldo Rayol, Os Farrapos, Paixão Cortes, Coral Unisinos, entre tantos.

Prenda Minha

Vou embora, vou-me embora,
Prenda minha,
Tenho muito que fazer.
Tenho de ir parar rodeio,
Prenda minha,
No campo do bem-querer.

Noite escura, noite escura,
Prenda minha,
Toda noite me atentou.
Quando foi de madrugada,
Prenda minha
Foi-se embora e me deixou.

Troncos secos deram frutos,
Prenda minha,
Coração reverdeceu.
Riu-se a própria natureza,
Prenda minha,
No dia que o amor nasceu.

Um trecho de Prenda Minha foi usado durante muito tempo como vinheta de abertura e final das transmissões da Rádio Gaúcha. No início, tocada com um vibrafone, depois com Geraldo Flach ao teclado.

(ZH, Caderno de Cultura, de 17-08-2000.)


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