quinta-feira, 3 de abril de 2014

“A Queimada”

Ledo Ivo

O poeta dá o conselho: "Seja como os lobos: more num covil e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados. Viva e morra fechado como um caracol. Diga sempre não à escória eletrônica."



"Queime tudo o que puder:
as cartas de amor,
as contas telefônicas,
o rol de roupas sujas,
as escrituras e certidões,
as inconfidências dos confrades ressentidos,
a confissão interrompida,
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arteriosclerose,
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados,
nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita."



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