sexta-feira, 11 de abril de 2014

Alusões




Prof. Cláudio Moreno


Até o final do séc. XIX, a tradição greco-romana, de um lado, e a tradição judaico-cristã, do outro, eram os dois pilares em que se apoiava a formação de qualquer pessoa que passasse pela escola. Estudava-se o Latim e o Grego, e liam-se os autores clássicos - Homero, Ovídio, Cícero e Virgílio. Além disso, todo mundo, fosse ou não religioso, conhecia as principais passagens do Velho e do Novo Testamento.

Os personagens da mitologia e as figuras bíblicas podiam então ser mencionadas, porque pertenciam a um fundo comum de conhecimento que era reconhecido em todas as nações do Ocidente. Essas expressões continuam a ser usadas, mas perderam, para a maioria dos leitores, aquele valor de referência imediata e instantânea que antes possuíam, pois hoje são poucos os que conhecem a literatura clássica ou têm o hábito de ler a Bíblia. Ainda são bem conhecidos o episódio da Arca de Noé, ou da luta de Davi contra Golias, mas certamente nem todos sabem que uma frase sibilina é aquela que pode ser interpretada de várias maneiras, assim chamada por causa da linguagem ambígua e cifrada que as sibilas, sacerdotisas de Apolo, usavam nas suas previsões do futuro. Sem querer substituir a leitura dos bons autores do passado, apresento abaixo algumas dessas expressões e a história que se esconde atrás delas.

A espada de Dâmocles: Dizer que alguém "está sob a espada de Dâmocles" significa que, a qualquer momento, algo de muito ruim pode acontecer com o pobre coitado. O nome vem de um certo Dâmocles, que vivia na corte de Siracusa, no século IV A.C. Como freqüentava o palácio e era amigo do rei, expressava constantemente sua inveja pelas delícias proporcionadas pelo trono. O rei, para mostrar-lhe o preço que se paga pelo poder, ofereceu-lhe um requintado banquete, deixando suspensa sobre a cabeça de Dâmocles uma espada que pendia ameaçadoramente do teto, presa apenas por um único fio delgado. Com isso, o invejoso cortesão entendeu a precariedade do poder real, e a expressão passou a simbolizar "um perigo iminente que paira sobre a vida de alguém". Para quem é soropositivo de HIV, a ameaça de que a AIDS venha a se manifestar é uma verdadeira espada de Dâmocles.

O bode expiatório: Na tradição bíblica, esse bode fazia parte do ritual pelo qual os hebreus expiavam suas culpas diante do Senhor. Todos os anos, no Iom Quipur (o Dia do Perdão), o sacerdote simbolicamente lançava sobre um bode todos os pecados do povo de Israel e o soltava no deserto, a fim de que os castigos e as maldições caíssem longe dos fiéis. Exatamente por isso a expressão hoje designa aquele inocente que é escolhido para levar a culpa do que os outros fizeram. Sempre que há um escândalo financeiro, logo aparece um pobre bode expiatório...

Cair nos braços de Morfeu: A expressão significa "adormecer", e nasce de um pequeno equívoco mitológico: Morfeu era, na verdade, o deus dos sonhos em que apareciam as formas humanas; o deus do sono era seu pai, Hypnos, que dormia eternamente no fundo de uma caverna silenciosa, cercado de canteiros de papoula, a flor de onde se extrai o ópio. A confusão, contudo, ficou consagrada há muitos séculos. Quando o farmacêutico alemão F.W.Setürmer isolou, em 1803, o alcalóide ativo do ópio, chamou-o morphium, numa alusão a Morfeu. Este nome foi em seguida mudado para morfina, recebendo a terminação padrão de outros alcalóides, como a estricnina, a cafeína, a atropina e a cocaína.

O calcanhar de Aquiles: O nome vem de Aquiles, o grande herói grego na Guerra de Tróia. Ele era considerado invulnerável porque, ao nascer, tinha sido mergulhado pela mãe nas águas sagradas do Styx, o rio dos deuses; no entanto, como ela o tinha segurado pelo calcanhar, esta parte não tocou na água, ficando desprotegida. É exatamente nesse ponto que Páris, filho do rei de Tróia, acerta uma flecha envenenada, tornando possível a morte do herói. Usamos a expressão para designar o ponto em que uma pessoa é realmente vulnerável; durante a Copa, alguns cronistas disseram que o calcanhar de Aquiles de Ronaldinho era o joelho, frase que deve ter deixado confuso quem pensou que se tratava apenas de anatomia.

Leito de Procusto: Na mitologia grega, Procusto era um salteador sanguinário que obrigava suas vítimas a deitar sobre um sinistro leito de ferro, do qual nenhuma saía com vida: se elas fossem mais curtas que o leito, estirava-as com cordas e roldanas; se ultrapassassem as medidas, cortava a parte que sobrava. Teseu foi ao seu encalço e matou-o, fazendo-o provar seu próprio remédio. A expressão é usada para qualquer tipo de padrão que seja aplicado à força, sem o menor respeito por diferenças individuais ou circunstâncias especiais. Na história da educação, houve momentos em que a escola se converteu num verdadeiro leito de Procusto, impondo a todos os alunos, indistintamente, o mesmo modelo.

O pomo da discórdia: A lendária Guerra de Troia começou numa festa dos deuses do Olimpo: Éris, a deusa da Discórdia, que naturalmente não tinha sido convidada, resolveu acabar com a alegria reinante e lançou por sobre o muro uma linda maçã, toda de ouro, com a inscrição "a mais bela". Como as três deusas mais poderosas, Hera, Afrodite e Atena, disputavam o troféu, Zeus passou a espinhosa função de julgar para Páris, filho do rei de Tróia. O príncipe concedeu o título a Afrodite em troca do amor de Helena, casada com o rei de Esparta. A rainha fugiu com Páris para Tróia, os gregos marcharam contra os troianos e a famosa maçã passou a ser conhecida como "o pomo da discórdia" - que hoje indica qualquer coisa que leve as pessoas a brigar entre si.

Trabalho de Sísifo: Sísifo, um dos mais astutos personagens da Mitologia Grega, enganou várias vezes o próprio Zeus, o rei dos deuses. Como castigo, foi condenado, quando morreu, a rolar uma pesada pedra até o pico de uma das montanhas mais altas dos Infernos. O detalhe torturante é que esta pedra tinha um peso calculado de tal forma que, a poucos metros do cume, faltavam forças a Sísifo e a pedra rolava encosta abaixo, começando tudo outra vez, pela eternidade. A expressão hoje designa qualquer trabalho que pareça interminável; por exemplo, manter o quarto em ordem é um verdadeiro trabalho de Sísifo, pois ele começa a desarrumar-se assim que voltamos as costas.

Quintos dos infernos: essa é realmente uma expressão meio misteriosa; há muitas hipóteses para sua origem, mas nenhuma chega a me convencer totalmente. Uma corrente (com variantes, é claro) associa o termo quintos ao imposto de 20% cobrados pela coroa portuguesa sobre todo o ouro fundido no Brasil. Falava-se em quintos mais ou menos como hoje ainda se fala em décimas, no sentido tributário. Em Parati, por exemplo, até hoje existe a velha Casa dos Quintos. O navio que levava a Lisboa o produto dessa arrecadação era a nau dos quintos; por causa da antipatia que os brasileiros sentiam por esse tributo, teria sido agregada a locução "dos infernos", ficando então completa a expressão.

Outra corrente volta-se para Quintos, uma das freguesias de Beja, em Portugal. Como estava situada, na Idade Média, no limite do território português, a localidade era alvo constante das investidas dos chefes árabes que dominavam grande parte da Península Ibérica, o que tornava infernal a vida nessas paragens. Daí teria vindo o hábito de arrenegar os desafetos e inimigos, mandando-os para "os Quintos dos infernos". 



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