quarta-feira, 16 de abril de 2014

Cada qual melhor



Numa feira no Oriente, um árabe vendeu a um judeu um cavalo que mancava visivelmente. O negócio foi fechado por cem rublos e o judeu tendo pago num bilhete aquela importância, foi-se com o animal. Um curioso que havia assistido à venda, o seguiu.
- Roubaram-te – disse ele ao judeu, - este cavalo manca muito.
- Eu bem sei, porque fui eu quem lhe enterrou um prego no pé para depreciar justamente o animal.
O curioso corre então atrás do árabe e lhe diz:
- Foste embrulhado, meu amigo, porque foi o judeu que fez o cavalo mancar.
- Tu me fazes rir, - respondeu o árabe. – Eu bem vi o truque do espertalhão, mas o meu cavalo é manco de nascença.
O curioso volta ao judeu e conta o que sabia.
- Ah! – disse ele, - que espertalhão é esse árabe! E eu que começava a ter escrúpulos de lhe haver passado uma nota falsa de cem rublos!

* * * * * * *

Fábulas de Balthazar de Pereira

Os cabos dos machados

Sem glória, sem troféus, hunos conquistadores
invadem de repente
a mata, os lenhadores.

Nos ombros, ao sol quente
dos machados fatais, as lâminas polidas,
brilham sinistramente.
– Que vêm eles fazer? – perguntam encolhidas
e pálidas de medo
as árvores transidas.

– Vêm decepar-nos, vêm – diz-lhes quase em segredo,
o funéreo cipreste,
vigia do balsedo.
Há quem chore ou proteste?

Junto ao escarcéu brutal de monstros desonrados
Nenhum pavor ateste.
De nós somente, irmãs, hoje aqui nos queixemos...
Os cabos dos machados
fomos nós que lhes demos.

Vingança do martelo

Um pedaço de ferro, ardente e incandescido
da fornalha saiu e à bigorna atirado,
sem compaixão batido,
negros males gemeu:

– Quando, martelo irado,
me livrarei de ti? Sorte mesquinha e dura!
Tu me punges sem dó, calmo, implacável, frio
no excesso da tortura...
E que serei depois? Mudar-me-ás de feitio?
Serei barra ou varão: Sereia varão ou chapa?

Venturoso de mais, do suplício tremendo
o pobre humilde escapa;
transforma-se em martelo e hoje – destino cego –
hoje de cima esquece os passados horrores,
ferindo, arrebentando as cabeças de pregos,
surdo a gritos e dores.








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