sábado, 12 de abril de 2014

Carta Testamento de Getúlio Vargas

Por Marcelo Coelho


O corpo de Getúlio e a perfuraçõa da bala que o matou.


O dia é 24 de agosto de 1954. O Brasil acorda sob o efeito de uma bomba: o suicídio do então presidente Getúlio Vargas. Pressionado pela oposição, acusado de ter participação num atentado a Carlos Lacerda e em meio a uma crise econômica, Vargas decide pôr fim à própria vida, deixando um documento que faria história: sua carta-testamento. O verdadeiro autor da carta foi José Soares Maciel Filho, espécie de conselheiro de Vargas desde a década de 30, presidente do BNDE (1951-54) e da antiga Sumoc (hoje, Banco Central). A carta-testamento foi encomendada por Vargas para sua renúncia e escrita entre 8 e 9 de agosto. Nela, Vargas se expressa como vítima de uma conspiração contra os interesses do povo. O texto mostra a tentativa de Vargas de reescrever a própria trajetória, conquistando a grandeza do mito.

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Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive que renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização de nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente. Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de cem milhões de dólares ao ano.

Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convoscoQuando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.


Análise das principais partes da carta-testamento:

Mais uma vez Þ Um estranho começo para que vai se suicidar. O melhor seria dizer “Pela última vez” banaliza a oposição, torna rotineiro o fato “mais uma vez, ele tentam me depor, mas novamente serão frustrados...”

e principalmente os humildes. Þ A especificação diminui o poder da frase, porque o “principalmente” significa “na maior parte das vezes”, isto é, “nem sempre”; tem um ar de “sempre que possível defendi os humildes” – nada comparável ao efeito da frase se terminasse apenas, dizendo: “defendi o povo pobre, o povo humilde do Brasil.” Já “sigo o destino que me é imposto”, não é frase de um líder; talvez seja a de um mártir.

domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais Þ o vocabulário, aqui, é totalmente de esquerda.

chefe Þ Chefe, em vez de “líder”, traz conotações autoritárias, ditatoriais, estadonovistas, caudilhesca, e não esquerdistas.

trabalho de libertação Þ Libertação de quem? A frase é vaga, necessitaria de um complemento “iniciei o trabalho” de libertação do operariado...”, mas na ausência desse complemento, a frase termina com uma frase mais vaga: “instaurei o regime de liberdade social” – o que é um tanto contraditório; “regime” e “instaurar” não são palavras que combinem mito com “liberdade”...

Petrobrás Þ Seria preciso imaginar, não o gigante estatal de hoje, uma companhia maior do que a Microsoft e a Coca-Cola, mas uma pequena empresa, quase doméstica, de nome modesto, meio provinciano.

Não querem que o trabalhador seja livre. Não quem que o povo seja independente Þ Estranho, aos olhos de hoje, vincular o sucesso da Eletrobrás à liberdade do trabalhador. A frase seguinte, ligando independência econômica do país ao povo, parece mais clara. Haveria equivalência entre liberdade (individual) do trabalhador (que, enriquecendo, estará a salvo de seus grilhões) com independência (econômica) do povo (que dependerá menos de importações de aço e petróleo, por exemplo). Menos lucro para as empresas estrangeiras, menos lucros para as nacionais: dos dois pontos de vista, os trabalhadores sairiam ganhando. Neste parágrafo se condensa a doutrina do nacional-populismo de Vargas.

nossa economia Þ A especificação econômica do raciocínio anterior oblitera (ou explica, conforme o ponto de vista do leitor) o foco factual da crise de agosto de 1954: a tentativa de assassinato, por parte do chefe da guarda pessoal de Vargas, do principal líder da oposição ao governo, Carlos Lacerda.

Escolho este meio de estar sempre convosco Þ O texto adquire sonoridades quase religiosas. Vargas, como Cristo, chama a si todos os males, para libertar o povo.

Quando Þ A tripla repetição (“Quando... quando... quando...”) é sempre eficaz do ponto de vista retórico, sugerindo um crescendo, como se estivéssemos diante de um discurso oral, A terceira sentença, entretanto, é bem mais vaga que as duas anteriores.

manterá a vibração sagrada Þ Neste ponto, o texto alcança um grau extremo de messianismo; torna-se difícil imaginar que alguém pudesse escrever isso na primeira pessoa.

respondo com perdão Þ A referência aqui, é a São Francisco de Assis.

que me derrotaram respondo com minha vitória Þ O tom vindicativo desta frase parece psicologicamente mais plausível.

Mas esse povo de quem fui escravo não será mais escravo de ninguém Þ Haveria alguma contradição neste raciocínio? Uma frase mais consistente do ponto de vista lógico (embora absurda do ponto de vista político), seria “o povo foi meu escravo, com minha morte não será mais escravo de ninguém”.

Meu sacrifício ficara sempre em sua alma e meu sangue será o preço do se resgate Þ A frase é um pouco redundante em relação ao conjunto do parágrafo. Ainda assim, o raciocínio geral apresenta problemas.. Se, com a morte de Vargas, ninguém mais será escravo, por que imaginar, com dito acima, a hipótese de que o povo ainda venha a sentir fome, a ser vilipendiado e humilhado?

Tenho lutado de peito aberto Þ Vargas se suicidou com um tiro no peito.

Agora vos ofereço a minha morte Þ A síntese da carta, nestas duas frases curtas, é de grande impacto emocional.

saio da vida para entrar na História Þ A fórmula magistral, amplia o horizonte das anteriores, e suscita o assentimento do leitor.


(Texto da Revista Língua Portuguesa, n° 2)


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