sexta-feira, 25 de abril de 2014

Cena urbana




Millôr Fernandes

(Num mundo vastamente analisado e liberado, um homem e uma mulher se encontram)


Ela (Abrindo a porta) – Oh, Bernardo, que surpresa!

Ele – Posso entrar?

Ela – Ora, precisa perguntar? Que bom te ver.

Ele (Sentando) – Não vou tomar muito teu tempo. Era só uma coisa que queria te dizer. Tinha que ser hoje. Mas é coisa breve.

Ela – Foi ótimo você ter vindo. Eu também queria muito falar com você. Não tenho tido jeito, modo, oportunidade.

Ele – Ah, é? Então fala.

Ela – Não, Bernardo, fala você. Você, afinal, veio até aqui pra isso.

Ele – Mas posso escutar também, Luísa. Que foi?

Ela – Não sei como dizer. Sei que o que vou falar vai te magoar profundamente.

Ele – Não precisa arranjar palavras com que se explicar, Luísa. Você quer romper comigo. Não é isso?

Ela – Você já tinha percebido? Ah, meu pobre Bernardo, juro que não queria te fazer sofrer.

Ele – É estranho o mundo, não é mesmo? Estranha a vida! Eu vim aqui exatamente pra romper com você...

Ela – Ah, meu querido. Não precisava dizer isso. Eu te compreendo. Eu te conheço. Ninguém conhece você melhor do que eu. É natural que você esteja querendo me proteger de um golpe como esse – é sempre profundamente doloroso ser rejeitado, por mais que você esteja cansado do outro -, mas, pelo amor de Deus, não finja que está tomando a iniciativa! Por mais que isso fira teu orgulho masculino, o seu machismo natural, a verdade é que sou eu quem está rompendo com você.

Ele – Mas que isso, Luísa? Que bobagem. Uma mulher tão inteligente, tão madura. Eu acho que esse negócio de Liberação aí envenenou vocês todas. Estão todas sentindo uma terrível necessidade de se afirmar, acima do homem, como super-homens. Bobagem!

Ela – Que é isso, Bernardo? Não é nada disso! É uma questão de colocar as coisas em seu lugar. Uma questão pura e simples de prioridades. Fui quem. . .

Ele – Luísa, você sabe que quem abriu a questão fui eu! Você podia estar querendo romper comigo, mas quem rompeu fui eu. Embora isso não tenha a menor importância, está visto.

Ela – Evidente que não tem a menor importância. É só uma questão de deixar a verdade esclarecida. Sou capaz de repetir as minhas palavras: “Foi ótimo você ter vindo – sei que o que vou te falar vai te magoar profundamente”.

Ele – É verdade. Também me lembro muito bem. Mas por que é que você disse isso? Porque eu, antes, disse que precisava muito falar com você, como, aliás, está demonstrado pelo simples fato de eu vir aqui.

Ela – Mas o fato de você vir aqui e querer falar comigo poderia exprimir até uma vontade de reconciliação. Ah, estamos nos envolvendo numas conversa extremamente infantil, Bernardo, pelo simples fato de que você está magoado.

Ele − Ah, Luísa, pelo amor de Deus! Como é que eu podia me magoar com uma coisa que era exatamente o que eu queria? Eu vim romper com você. Fui eu quem usou primeiro a palavras ROMPER.

Ela – Olha, Bernardo, quer saber de uma coisa: já não me interessa mais saber se você ficou ou não ficou magoado. O que me importa agora é deixar claro que fui eu quem rompeu com você. A palavra romper foi minha.

Ele – Mas que coisa, Luísa! Rompeu coisa nenhuma. Fui eu que rompeu! Fui eu! 

Ela – Você, Bernardo? Fui... Ah, querido, estamos sendo inteiramente ridículos! Que discussão mais idiota! (Ri, inocente) Vamos parar com isso. Idiota! Idiota!

Ele – É mesmo. Você tem toda razão. Não tem o menor sentido. (Longa pausa)

Ela – Olha, Bernardo, você vai me perdoar mas tenho que sair agora. Se você quiser, nos encontramos amanhã de novo pra conversar tudo com mais calma.

Ele – Está bem, Luísa. Você é quem manda. Eu te telefono amanhã de manhã e combinamos alguma coisa. Tchau. Até amanhã.

Ela – Até amanhã. (Beijinhos. Se despedem na porta)

Ele – Coitada, vai ficar esperando esse telefonema a vida inteira.

Ela – Idiota! Amanhã, quando telefonar, mando dizer que não estou.
                       

  
(PANO RÁPIDO) 

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