domingo, 20 de abril de 2014

Charla de Compadres



- Será que chove, compadre?

- Chove, e ligeiro. Geada na lama, chuva na cama, diz um ditado mais velho que cagar de cocra.

- É verdade. Mas não se esqueça que tem outro que nos reza assim: vivente que quer mentir fale do tempo.

- Certo com dois mais dois são quatro. E por falar em mentira, compadre, a dita cuja tem pernas curtas, e mais depressa se pega um mentiroso que um coxo.

- E nem carece correr, compadre. Não se esqueça que boi lerdo bebe água suja.

- Suja e bosteada. Ma por falar em água, quem sabe a gente toma um trago daquela que passarinho não bebe?

- É pra já a canha, compadre velho. Mulher, cachaça e bolacha em qualquer parte se acha.

- Com mulher tenho meus desconformes. E com razão. Mais que ninguém é você que conhece minha vida.

- Mas não foi por falta de aviso. Sempre lhe disse que mulher e cachorro de caça se conhecem pela raça.

- Não lhe tiro a razão. Sucede que naquele tempo eu era moço, balançava que nem bola de touro e não sabia que mulher e rabo de cachorro nunca se sabe pra que lado vão abanar.

- E era vaidosa, a Rita. E mulher vaidosa e ovelha lanuda é facilitar e pegam carrapicho.

- Bueno, mas isso são coisas do passado. E o que não tem remédio, remediado está.

- Nesse ponto eu fui mais feliz, com a finada, que Deus a tenha em sua mão direita. É que eu sempre tive por norma que onde o galo canta a galinha cacareja.

- Tás te bobeando, compadre. Olhe que presunção e água benta cada qual toma o que quer.

- Presunção coisa nenhuma. Acontece que na vida mais vale a prática que a gramática.

- Ah, isso é. Já dizia Martim Fierro que “el diablo sabe por diablo, pero más sabe por viejo”.

- Além do que, compadre, não há quem não saiba que com bicho que usa saia – padre, juiz e mulher – todo cuidado é pouco.

- Pois eu acho que depende. É que quem anda aos porcos tudo lhe ronca.

- Por falar em ronca, vou fazer roncar este mate que arrematou a canha, virar a erva e...

- Gracias, compadre. Já tomei o chimarrão pro estribo e vou andando. Tenho muito que fazer, logo mais, e como você sabe, primeiro os encargos, depois os amargos.

- Se é assim... Mas apareça, compadre.

- Outro dia, no mais. Quem é vivo sempre aparece...


(Do livro “Boca do Povo”, de Apparicio Silva Rillo)


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