terça-feira, 1 de abril de 2014

Depoimentos

Luís Fernando Veríssimo


Luis Fenado por Fraga

O Brasil está nocauteado pelas denúncias de corrupção. 

Em 10 curtos depoimentos, o país tenta se reconhecer.

          “Se eu já vi coisa parecida com o que está acontecendo no Brasil hoje? Olha, já vi sim. Nós tinha um chiqueiro em casa, e era parecido. Um pouco melhor porque porco não fala, né? Era como é hoje, mas sem os depoimentos.”
                                                                                                                                        
          “Meu nome é Neuplides. Pior é meu irmão, que nasceu no dia primeiro de janeiro e meu pai foi olhar na folhinha que dia era aquele, pra ver que nome dava, e o nome dele ficou Circuncisão de Jesus. Mas em casa a gente chama de Cisão.”

        “Manga com leite mata, água depois do café entroncha e cachaça com melancia não mata, mas o cristão fica uma semana piscando ligeiro e com o pé virado pra dentro. Um tio meu comeu uma rabada de porco com licor de graviola e quando acordou da sesta estava coma cueca pra fora das calças e só falava alemão.”

          “Não sou padre milagreiro, não. O povo é que pensa, sabe como é brasileiro. Quer dizer, faço meus milagrinhos, mas nada de levantar morto ou fazer corcunda aprumá. Só milagrinho de quermesse. Levito galinha, curo catarreira e transformo lombriga em vagem. Nada de milagrão, desses de aparecer no Fantástico. Quem sou eu? Só milagre municipal!”

          “Cantuérpia Falcão. Sou tia. Esta aqui no meu cartão; Profissão: tia. Acompanho menina em forró e baile no salão da igreja e também fico junto na sala em caso de namoro firme ou noivado. Sou incorruptível, um exemplo para os político. Cobro pouco e se a menina não chegar virgem no casamento, devolvo o dinheiro.”

         “Vocês conhecem o Cego Aderaldo, o Cego Rupião e o Cego Jovair, todos os três cantador de primeira, mas aposto que não me conhecem. Vistas Cansadas Edélsio. Pois é, tá assim de sanfoneiro cego fazendo sucesso, mas eu ninguém convida. Eu tenho culpa de não ser cego? Não adianta dizer que tenho astigmatismo e miopia, eles querem cego, cego. Discriminação, sô!”

          “Pra saber como vai ser o seu marido, encha uma bacia grande com água e deixe na rua durante toda a noite de São João. Se cair folha dentro da bacia vai ser moreno, se cair flor vai ser claro, se cair inseto vai ser militar e se cair homem, leva pra casa, enxuga e fica com ele mesmo, uai.”

          “Os bonecos são todos meus, sim senhor. Mestre Pontinho, artista popular, seu criado. Este aqui é o Lampião, esta é a Maria Bonita, Corisco, Sarney, Xuxa... Este é mais caro porque é o Padre Cícero e este grupo aqui é a CPI do mensalão. Vendo separado ou tudo junto com desconto.”


          “Pra casar, sendo homem tá bom. Eu já disse pra Santo Antônio: “Antônio faz o melhor que puder, mas se tiver defunteiro ou sapateiro viúvo não tem importância não, desde que esteja em bom estado. Só não quero manicure ou tesoureiro de campanha pra não me incomodá

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