terça-feira, 1 de abril de 2014

Dois sonetos de Paula Nei



Trança

Esta santa relíquia imaculada
Do teu saudoso amor, esta lembrança
Da vida, que fugiu arrebatada,
Ligeira, como um sonho de criança.

Nas noites do meu sono de bonança
Eu guardo, junto a mim, ah! noiva amada,
Enquanto minha vista não se cansa
De vê-la, de adorá-la, extasiada...

Com o fio desta trança tão escura,
Tão negra, sim, que até minha amargura
Invejara-lhe a cor, e tão macia,

Qual pétala de rosa, eu teço, à noite,
Da viração sentindo o brando açoite,
O epitáfio de minha campa fria.


Tu és Minha

Tu és minha, afinal. Enfim te vejo
Sobre meus braços lânguida, prostrada,
Enquanto em tua face descorada
Os lábios colo e sorvo-te num beijo.

Vibra em minha alma o lúbrico desejo
De assim gozar-te, a sós, abandonada,
De sentir o que sentes, minha amada,
De escutar-te do peito o doce arpejo.

Quando, entretanto, sinto que teu seio
Palpita, delirante, em doido anseio,
Como a luz que do sol à terra emana,

Eu digo dentro de mim: ‒ “Se eu te manchara,
Se eu te manchara, flor, eu não te amara,
Ó branca espuma da beleza humana!”


 

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