domingo, 6 de abril de 2014

Epitáfios folclóricos




Luiz R. de Almeida


O uso dos epitáfios remonta a mais alta antiguidade. Somente entre os gregos e os romanos, os personagens ilustres e os guerreiros mortos tinham direito à honra de ver seus nomes imortalizados por uma inscrição gravada no túmulo, e esta inscrição sempre breve e simples, não fazia senão relembrar o nome e os atos bem conhecidos do defunto.

Enquanto, entre nós, o epitáfio começa de ordinário por “aqui jaz”, entre os   romanos, que colocavam seus túmulos perto das estradas, principiava pela formula sia viator, detemte, viandante, ou “pára, viajante”.

As mais das vezes, os povos modernos e contemporâneos não imitaram a simplicidade dos antigos epitáfios.

Se entrarmos, hoje, num cemitério leremos por toda parte pomposos elogios, enumerações de virtudes ou qualidades a fazer crer que a terra só e habitada por indivíduos dignos da “idade do ouro”…

O epitáfio pode ser “literário” ou “vulgar”. O primeiro não é geralmente feito para ser inscrito num túmulo. Todavia, no monte Archino da ilha de Chipre, foram encontrados na sepultura de um príncipe daquele reino, uns versos em língua grega, que foram mandados ao rei dom João III e à rainha dona Catarina.

Os versos gregos, traduzidos para o nosso idioma, são verdadeiros provérbios que estão gravados para sempre e encerram conselhos admiráveis.

O que pude fazer por bem, nunca o fiz por mal
• O que pude alcançar com paz, nunca tomei com guerra
• O que pude vencer com rogos, nunca o decidi com ameaças
• O que pude emendar em segredo, nunca o castiguei em público
• O que não pude conseguir com aviso, nunca o fiz com castigo
• Nunca consenti que minha língua dissesse mentiras
• Nunca permiti que meus ouvidos escutassem lisonjas
• Refreei o meu coração para que não desejasse o alheio e consegui que se contentasse com o próprio
• Velei por conservar os meus amigos e desvelei-me por não ter inimigos
• Não fui pródigo em gastar, nem cobiçoso em receber
• Nunca castiguei uma culpa sem ter antes perdoado quatro
• Do que castiguei tenho pesar, e do que perdoei alegria
• Nasci homem entre homens, portanto os bichos comerão a minha carne
• Vivi virtuoso, como os virtuosos, portanto descansará a minha alma com Deus

         O epitáfio vulgar e laudatório ou satírico. Pode ser em prosa ou em verso. Exemplos:

Aqui jaz o Mergulhão
Um doutor bem competente
Morreu de satisfação
Quando salvou um doente…

(qualquer semelhança é pura coincidência…)

         Aqui jaz um professor de matemática que, de tanto calcular, morreu de cálculos… no fígado

No jazigo de uma quarentona:

Dona Emília Soromenho
Aqui dorme embalsamada
Realizou seu velho empenho
Que era ser bem conservada.

No túmulo de um rapaz que faleceu quinze dias depois de casar:

Casou-se o pobre coitado
E logo em seguida foi-se…
É verdadeiro o ditado:
“Em cima de queda, coice.”

Epitáfio de um viúvo egoísta no túmulo da ex-esposa:

Debaixo desta negra e triste lousa,
Fria repousa
O perfeito modelo das esposas
Ternas, meigas, amantes, carinhosas.
- Se antes de mim não morre, a doce amiga,
Morria eu primeiro — olha que espiga!...

Numa cidade da nossa Bahia, muito importante pelo seu grande comércio de diamantes, há, no cemitério, em uma das mais ricas sepulturas, a seguinte inscrição:

Aqui jaz a inocente
Filhinha
- o quem diria?
Dos senhores P. Cardoso
Etc. & Companhia.

Na campa de dois casados que se deram muito mal em vida:

Ó caminhantes! Parai!
Vede esta maravilha:
Juntos marido e mulher
Sem haver briga ou quinquilha!

Epitáfio humorístico no túmulo de uma nobre senhora muito faladeira:

Nesta cova sepultada
Jaz uma nobre senhora.
Que nunca, nem uma hora
A boca teve calada.
E tanto, tanto falou.
Que não tornando a falar,
Não chegara seu calar
Ao que o seu calar chegou.

Epitáfio de um filósofo:

De um filósofo é o nome nesta lousa.
A vida pelo mundo a cada passo
Gastou gritando: “Não há o tempo, o espaço!”
Mas para isso ocupando uma e outra coisa.
Negou a causa e lhe morreu do efeito
Se há quem preze filósofos, anote-se:
“São sofistas, são cínicos de jeito que da filosofia a tese é a hipótese….”

Epitáfio de um militar:

Aqui jaz um valente cidadão.
Que nunca conheceu o que era medo
Exercendo com garbo a profissão,
Maior fosse o perigo, ou mesmo o enredo,
Jamais tremeu, jamais se acovardou
Ante a ameaça do rifle, ou do canhão,
… Aqui hoje tudo se foi, tudo acabou
na santa paz desta feliz mansão.

Um estudante, lendo o epitáfio, gravado na pedra, escreveu em seguida a lápis:

“foi porque você nunca fez exame…”


Luiz R. de Almeida: "Epitáfios folclóricos". Jornal do Comércio. Salvador, 27 de abril de 1953


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