terça-feira, 8 de abril de 2014

Espada de Dâmocles

         

 É o iminente estado de perigo, o risco de que a qualquer momento algo ruim pode acontecer. Vamos conhecer o berço da expressão, que vem de longe. Dâmocles era um cortesão que vivia adulando Dionísio, o cruel governante de Siracusa, lá pelo século 4 antes de Cristo. Era um puxa-saco, não se cansava de exaltar a capacidade do tirano. Certo dia, Dionísio, que exercia o, poder sem discussão, simulando agrado por tanto elogio, ofereceu um lauto banquete a Dâmocles e lhe concedeu lugar de destaque à mesa. Discretamente, porém, mandou colocar, acima da cabeça de Dâmocles, uma espada pendente por fina crina de cavalo que a qualquer momento poderia romper-se.

Louco de felicidade pela homenagem recebida, Dâmocles só percebeu a espada pendurada quando o próprio Dionísio a apontou. Aterrorizado, fugiu do lugar que ocupava. Do episódio, resulta a lição de que todo indivíduo passa por permanente perigo na vida, mesmo quando detém grande influência. É o preço que paga quem muito oprime seus semelhantes. Mal sabe como é efêmero o poder, que escorre pelos dedos  mesmo sem ameaça de uma espada sobre a cabeça. Às vezes um peteleco basta, e lá se vai o mandão para o beleléu.

(Da coluna “O Berço da Palavra”, de Márcio Cotrim, em O Sul)

Segunda versão
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A Espada de Dâmocles

Era uma vez, um rei chamado Dionísio, monarca de Siracusa, a cidade mais rica da Sicília. Vivia num palácio cheio de requintes e de coisas bonitas, atendido por uma criadagem sempre disposta a fazer-lhe às vontades. Naturalmente, por ser rico e poderoso, muitos siracusanos invejavam-lhe a sorte. Dâmocles estava entre eles. Era dos melhores amigos de Dionísio e dizia-lhe freqüentemente.

- Que sorte a sua! Você tem tudo que se pode desejar. Só pode ser o homem mais feliz do mundo!

Dionísio foi ficando cansado de ouvir esse tipo de conversa.

- Ora essa! Você acha mesmo que eu sou mais feliz do que todo mundo?

O amigo respondeu:

- Mas é claro! Olhe só o seu tesouro e todo o seu poder! Você não tem absolutamente nada com que se preocupar. Poderia sua vida ser melhor do que isso?

- Talvez você queira trocar de lugar comigo - disse Dionísio.

- Ora, eu nem sonharia com uma coisa dessas! Mas se eu pudesse ter sua riqueza e desfrutar de todos esses prazeres por um dia apenas, não desejaria felicidade maior.

- Pois bem! Troque de lugar comigo por um dia apenas e desfrute disso tudo.

E então, no dia seguinte, Dâmocles foi levado ao palácio e todos os criados reais lhe puseram na cabeça as coroas de ouro. Ele sentou-se à mesa na sala de banquetes e foi-lhe servida lauta refeição. Nada lhe faltou ao seu bel-prazer. Havia vinhos requintados, raros perfumes, lindas flores e música maravilhosa. Recostou-se em almofadas macias. Sentiu-se o homem mais feliz do mundo.

- Ah, isso é que é vida! - confessou a Dionísio, que se encontrava sentado à mesa, na outra extremidade. - Nunca me diverti tanto.

Dâmocles enrijeceu-se todo. O sorriso fugiu-lhe dos lábios e o rosto empalideceu. Suas mãos estremeceram. Esqueceu-se da comida, do vinho, da música. Só quis saber de ir embora dali, para bem longe do palácio, para onde quer que fosse. Pois pendia bem acima de sua cabeça uma espada, presa ao teto por um único fio de crina de cavalo. A lâmina brilhava, apontando diretamente para seus olhos. Ele foi se levantando, pronto para sair correndo, mas deteve-se tremendo que um movimento brusco pudesse arrebentar aquele fiozinho fino e fizesse com a espada lhe caísse em cima. Ficou paralisado, preso ao assento.

- O que foi, meu amigo? - perguntou Dionísio - Parece que você perdeu o apetite.

- Essa espada! Essa espada! - disse o outro, num sussurro - Você não está vendo?

- É claro que estou. Vejo-a todos os dias. Está sempre pendendo sobre minha cabeça e há sempre a possibilidade de alguém ou alguma coisa partir o fio. Um dos meus conselheiros pode ficar enciumado do meu poder e tentar me matar. As pessoas podem espalhar mentiras a meu respeito, para jogar o povo contra mim. Pode ser que um reino vizinho envie um exército para tomar-me o trono. Ou então, posso tomar uma decisão errônea que leve à minha derrocada. Quem quer ser líder precisa estar disposto a aceitar esses riscos. Eles vêm junto com o poder, percebe?

- É claro que percebo! - disse Dâmocles - Vejo agora que eu estava enganado e que você tem muitas coisas no que pensar além de sua riqueza e fama. Por favor, assuma o seu lugar e deixe-me voltar para a minha casa.

Até o fim de seus dias, Dâmocles não voltou a querer trocar de lugar com o rei, nem por um momento sequer.

(Adaptação do Original de James Baldwin)

Versão resumida

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Dâmocles

(Século IV a. C.)

Conselheiro da corte de Dionísio o Velho, tirano de Siracusa, célebre ao longo da história, pelo lendário episódio da Espada de Dâmocles, que se tornou uma expressão que significa perigo iminente. Relatado por Cícero, em Tusculanae disputationes, e por outros clássicos, o acontecimento é resumido assim: Ao se declarar invejoso do poder do soberano, este então lhe propôs que ocupasse seu lugar por uma única noite, o que foi prontamente aceito. Para este breve governo, organizou um suntuoso banquete, e ocupou o lugar do tirano, recebendo todas as honras correspondentes ao cargo. No meio de sua euforia, levantou os olhos e viu, assustado, que, presa ao teto apenas por uma linha, uma enorme espada pendia sobre ele. Dionísio, então, explicou-lhe que a vida de um tirano era repleta de ameaças e que, se ele queria exercer tal função, mesmo que por uma só noite, tinha de suportar a presença inquietante da espada durante todo o banquete.



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