terça-feira, 1 de abril de 2014

Garoto jornaleiro

Álvaro Moreyra


                Em todas as esquinas, em todas as ruas, nos refúgios, nas praças, nos cais, ele surge, de cara espantada e alegre, roupas sobrando, um grito em cada canto da boca. Salta do estribo dos bondes, trepa na janela dos ônibus, zune numa finca atrás dos automóveis.
É um e é chusma.
Reticências da cidade...
Pobreza picada em pedacinhos, para ninguém saber como a pobreza é grande.
Garoto...
Tico-tico que cresceu, com as asas escondidas.
Os outros meninos ganham nomes: Fred, Vivinho, Didi, Maneco, Janjão, Juca, Totonho, Chiquinho...
Ele, não.
É o garoto... Mais nada.
Mas os outros meninos não andam sozinhos.
Ele anda.
É a riqueza que tem.
Mas os outros meninos não estão num monumento.
Ele está.
O garoto jornaleiro nasce nos subúrbios, brota dos cortiços, rola dos morros.
Filho do trabalho e da tristeza, substantivos comuns.
Herdou do pai a atividade sem proveito.
A mãe, quando o viu sair de casa pela primeira vez, botou nele os olhos com uma doçura tão longa, tão funda, que o garoto nunca mais se importou de andar vestido de farrapos; entre rasgões, acariciando-o todo, ele sente aquele olhar.
Aprendiz da fábrica enorme.
Desde que amanhece até a noite acabar, de pregão aceso, não pára, não descansa.
Diferente do baleiro e do vendedor de “minduim”, e do que aborrece, a insistir para que se compre o último “gasparinho” com o final da cobra.
Diferente do moleque. Não corre na frente das bandas de música. Não empina papagaios. Não tasca balões.
Incapaz de pedir.
Grita a mercadoria.
Quem quiser que o chame.
E é o único negociante que dá o troco certo...

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