quarta-feira, 9 de abril de 2014

Guilherme de Almeida


Guilherme de Almeida
(1890 –1969)


Guilherme de Almeida foi, talvez, um dos maiores poetas românticos do Brasil. Seus versos de amor, de paixões, de uma dedicação extrema ao ser amado, ultrapassem escolas e vão situar-se em níveis de imensidade na história poética pátria. Sonetista, enfeita o escrínio de qualquer antologia que se pretenda, com seus catorze versos de um momento de beleza incomparável, como pede a forma poética. Um deles, para mostrar tudo isso:

Soneto XXV

O nosso ninho, a nossa casa, aquela

nossa despretensiosa água-furtada,
tinha sempre gerânios na sacada
e cortinas de tule na janela.


Dentro, rendas, cristais, flores... Em cada

canto, a mão da mulher amada e bela
punha um riso de graça. Tagarela,
teu cenário cantava à minha entrada.


Cantava... E eu te entrevia, à luz incerta,

braços cruzados, muito branca, ao fundo,
no quadro claro da janela aberta.


Vias-me. E então, num súbito tremor,

fechavas a janela para o mundo
e me abrias os braços para o amor!


A rua da rimas


A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino

é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que mata...);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,
correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranqüilidade: RUA DA FELICIDADE...


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