terça-feira, 22 de abril de 2014

Guri

Cyro Martins


- Pstiu, caalo!

O pingo, bagual novo, se parara arpista com o rebuliço, instigando o ginete para uma escaramuça. Espantado, fogoso, cabeça erguida, trocando orelha, olhando longe, era um urco de grande o pangaré do Nilo.

- Cuidado, rapaz, que esse animal é velhaco.

- Não deixei as pernas em casa.

O guri, de ouvir, já sabia responder.

E não cansava de pular proezas, enganchado no cavalo de sarandi, com uma tira de pano, que era a cola, quebrada em cacho de três galhos bem em cima, lá onde canta o galo e os cuscos não alcançam.

- Volta, volta, boi!

Batendo as aspas pontudas no atropelo da disparada xucra, a novilhada estralava os cascos duros num estrondo, como chuva de pedra, no chapadão raso como uma tábua.

Gritaria. Agachadas. Guascaços puxados. Sofrenaços. Esbarradas compridas assinalando no chão a marca da sua violência. Tiros de laço, largados com maestria uns, e outros guampeando as macegas nomais. Rodadas feias. Silvos de boleadeiras pelo ar. E cavalos correndo soltos com arreios.

Um lote grande se cortou rumando o aramado. Na ponta, embora bem montado, o Ricardo, solito, não podia sujeitá-lo.

E se aproximavam ligeiro da cerca, que estava bem de pé, estirada, e era toda de madeirama nova.

A chapada, de resvaldia, era um sabão.

E a manhã, claríssima, tonteava de tanta luz.

Do oitão do rancho, montado no seu cavalinho de pau, o Nilo entusiasmado, contente, batendo os pezitos no chão, que o pingo fogoso não parava quieto, não tirava os olhos do grande cenário.

Nunca vira aquilo. E estava gostando de ver. Tinha lástima de não ser homem ainda para andar lá também, e correr e se arriscar.

Num vá, a cerca deitou. Assobiaram fios de arame arrebentados, e voaram lascas de pau, cravando longe no chão como estacas.

Tropeiro, cavalo e boiada uniram-se num bolo só.

E daí um pedação, apareceram com o Ricardo de arrasto num couro, sangrando.

Quebrara-se no golpe. Mas não gemia, procurando disfarçar a dor. O guri recolheu, na esperteza campeira dos olhinhos alarifes, toda a viva emoção daquele instante supremo na vida do gaúcho.

Todos estavam calados. Ele também. Não indagava nada. Olhava nomais.

O índio pediu um cigarro. Tragou uma pitada, e morreu.

Esse dia o guri não brincou.

Dias depois encontraram o Nilo, deitado debaixo do mesmo umbu, bem espichado, com um cigarro apertado entre os dentes, fingindo-se de morto.

Faz de conta que numa tropeada braba levara uma virada mui feia.

Perto, branqueando ao sol, a sua tropa. Ossada limpa!

A cerca de um fio único de barbante, suspenso antes na ponta de dois pauzinhos finos, toda caída no chão.

Ao lado do aramado, morto, o bagual pangaré.


(Do livro “Campo Fora”, primeiro livro de contos regionais do autor.)


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