terça-feira, 15 de abril de 2014

História de um cão




Figueiredo Pimentel


Vendo-se obrigado a fazer uma longa viagem por mar, a países desconhecidos, onde devia demorar-se algum tempo, um moço confiou a um amigo o seu cachorro.

- Olha, Manfredo, disse o rapaz à despedida, entrego-te o meu fiel Leão. É um animal dedicadíssimo como poucos, cheio de abnegação e afeto. É feio e está velho, mas peço-te que trates dele com todo o cuidado.

Manfredo era um estudante rico, que vivia à farta. Trouxe Leão para casa e ao passo que o cachorro ia pouco a pouco se lhe afeiçoando, ele aborrecia-o cada vez mais. O cão tinha saudades do seu primeiro dono, e por isso vivia tristemente pelos cantos da casa. Comendo pouco, emagrecia sempre, e tornava-se repugnante, cheio de lepra, com o pelo a cair. Manfredo procurava desembaraçar-se dele. Levava-o para lugares distantes, fora da cidade, e aí o abandonava; dava-o a pessoas da roça, mas Leão fugia e voltava sempre para casa.

Desesperado com aquela insistência, o estudante resolveu matar o cachorro. Uma tarde saiu de casa, chamando-o, festejando-o. À beira da praia, tomou um bote e mandou remar pela baía em fora. Quando estava longe de terra, em lugar mais profundo, agarrou de súbito o animal e arremessou-o à água. Leão olhou-o tristemente, como querendo queixar-se de tamanha ingratidão.

Manfredo voltou para terra, e saltou alegremente. Chegando a casa, reparou que havia perdido a corrente do relógio, de onde pendia uma medalha encerrando o retrato e os cabelos de sua mãe morta - única relíquia que dela possuía. O estudante, desesperado, maldisse de sua sorte.

À noite, deitado, não podia dormir, pensando na perda do precioso objeto, que não daria por dinheiro algum. De repente ouviu bater, arranhar a porta. Abriu-a. Recuou espantado. Leão, entrava, exausto, arfando, todo encharcado d´água. Parou no meio do quarto, e deixou cair da boca a medalha de Manfredo.

(Figueiredo Pimentel: Histórias da baratinha.
Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1994, p.194-195)


Galileu

Perguntaram, impertinentemente, a Galileu para que servia a geometria.

- Serve para pesar, medir e contar – respondeu o sábio com justa aspereza. – A geometria pesa os ignorantes, mede os tolos e conta uns e outros.

O solteirão

Perguntaram a um celibatário por que nunca havia se casado.

- É simples, respondeu. Prefiro passar a vida desejando algo que nunca tive, a passá-lo com algo que nunca desejei.

Mártires do mundo

O devedor, mártir de credores.
O assassino, de remorsos.
O infeliz, de desgraças.
O cínico, de surpresas.
O cético, de descrenças.
O soldado, de deveres.
O justo, de respeito.



2 comentários:

  1. Meu tio bisavo, Americo Moreira era carioca assim como sua esposa Ema e nao tiveram filhos. Ele era irmao de minha bisavo' Ercilia Goncalves Moreira da Costa Franco. Era irmao tambem de tia Heloisa Goncalves Moreira Buarque de Hollanda , mae de Sergio Buarque de Holanda e avo de Chico Buarque meu primo Meu e-mail e' luizimedeiros@uol.com.br

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    1. Amigo Luiz Inácio, você deve estar se referindo ao poema "Brinde de Honra", de Américo Moreira, no texto do almanaque intitulado "Pequena História de um Poema".
      Gostaria de saber mais sobre a vida desse poeta bissexto, que fez um dos mais recitados poemas no Rio Grande do Sul.

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