quarta-feira, 2 de abril de 2014

Histórias da Legalidade


(João Goulart e Leonel Brizola quando se encontraram no Palácio Piratini em 1961.)


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           O antigo Mata-Borrão era o local de recrutamento da população gaúcha que queria Lutar pela legalidade. Certa noite, chegou um gaúcho pilchado – vestido a caráter – integrante de um Centro de Tradições Gaúchas e apresentou-se ao chefe do alistamento:
            - Sou lá do interior e viemos aqui nos apresentar para defender a Legalidade.
            - Mas onde está seu grupo, quantos são?
            - Pra lutar só eu, os outros são da invernada artística.

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            Uma senhora grita na Praça da Matriz:
            - Rasgaram a Constituição!
            Um senhor grisalho, de terno claro, responde na hora:
            - Não se preocupe que o Brizola tem outra na gaveta.

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         Mais de 400 jornalistas credenciaram-se na assessoria de imprensa. As credenciais eram batidas à máquina e assinadas por Hamilton Chaves. Uma tarde, ele reuniu os correspondentes estrangeiros – havia gente do mundo todo – e tentou amaciar a turma. Após um breve discurso, ele pede que todos mostrem as suas credenciais.
     Entre preocupados e curiosos, os quarenta profissionais sacaram imediatamente as cartas datilografadas que o governo gaúcho lhe fornecera. Hamilton, revólver na cintura, continuou: “Estou pedindo isso, apenas pra dizer o seguinte: como esse movimento é democrático e de improviso, eu não tive tempo de plastificar as credenciais. Mas na próxima revolução, pra mostrar que talvez seja pra valer, nós vamos ter documento plastificado.”

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        Às duas da manhã, Josué Guimarães, que dormitava num sofá, a metralhadora ao lado, é sacudido pelo jornalista Carlos Contursi, da assessoria de imprensa do Piratini:
             - Acorda, Josué, os tanques da Serraria estão chegando!
             - Que horas são, Contursi?
             - Duas da manhã.
             - Contursi, deixa eu dormir... me acorda quando chegarem os tanques das quatro...

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           Gudy Edmunds, estrela do programa Patrulheiro Toddy, da TV Piratini, chegou, acompanhado de um grupo de fãs do programa devidamente uniformizados, para juntar-se aos militantes. Os rapazes receberam armas, para irritação de um senhor já idoso, que protestou: “Olha aqui, o perigo é esses guris atrás da gente, porque eles estavam reclamando pra mim que os fuzis estavam furados. Eles pegaram bala de 22 e queriam botar nos fuzis. Quando baixavam o cano, a bala saía”.

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       Quando a perspectiva de um ataque parecia mais real, dom Vicente Scherer voltou ao Piratini. Abraçou dona Neusa e procurou confortá-la: “Não vai ser nada, dona Neusa. E se for, que os primeiros tiros seja para mim”.
        Brizola soube da história e deu mais colorido ao diálogo que não presenciou, mandando divulgar que o arcebispo de Porto Alegre estava no palácio, pronto para sentar-se na frente do prédio e receber o primeiro tiro.

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      Numa noite de pouca comida no Porão, Hamilton Chaves providenciou duas galinhas para cozinhar com arroz. Apareceram dezenas de bicões – e ele tratou de espalhar o boato de que vários jatos tinham saído de Curitiba com a missão de bombardear o palácio (nenhum avião de guerra tinha tal autonomia de voo). O lugar ficou quase vazio, e o jantar deu para todos.

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       Para saudar a Legalidade e seus defensores ou criticar o inimigo solerte, toda forma de expressão era válida, como a oração assinada por Lia Correa, da rua Fernando Machado.

Salve a Constituição!
Gaúcho valente e bravo,
que jamais será escravo
de ditaduras cruéis.
Nosso grito já se expande
de norte a sul do Rio Grande
em direção aos quartéis.
Nosso grito é de união
pra libertar a Nação
das garras do Imperialismo.
Lacerda – Judas maldito
há de cair frente ao grito
de justiça e patriotismo.
A multidão acordou
pra grande realidade,
pois a carta de Getúlio
retrata bem a verdade
sobre o dólar da traição.
Nasceu o grito de alerta
unido ao de Jânio Quadros
que o no Rio Grande desperta
pra grande libertação.
.............................................
Avante, irmãos do Brasil!
Avante, ó povo gaúcho!
Que estamos com a razão.
Avante! Todos unidos!
Sem distinção de partidos...
E salve a Constituição!



Histórias retiradas de Veja Rio Grande do Sul, agosto de 1991,
e do livro “1961 Que as armas não falem”, 
de Paulo Markun e Duda Hamilton.



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