quinta-feira, 3 de abril de 2014

Histórias e Personagens da MPB-2


Chico perdeu seu violão


Galeria Metrópole, em São Paulo, era um local onde os sambistas se reuniam. Afinal, desfilava por lá a geração que estava chegando e confraternizava com os mais experientes. Era comum topar com Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Cyro Monteiro, Vinicius de Moraes, Hermínio Bello de carvalho e Chico Buarque de Holanda. Apareciam para uma troca de ideias,  bate-papo e casos acontecidos, a inspiração surgia. Adauto Santos conta como nasceu um samba famoso na Galeria Metrópole: “Estávamos eu, Jorge Costa, o Chico Buarque e acho que o Toquinho também, numa roda boa lá no Sandchurra – para ali todo mundo ia depois que o Jogral fechava. E o Chico ia saindo, dizendo que tinha compromisso no Rio, eram cinco horas da manhã. Daqui a pouco, volta o Chico perguntando: “Vocês viram o eu violão?”  O grupo responde que ele tinha saído com o instrumento, e todos se põem a rir. Chico se exaspera: “Vocês estão rindo? Eu perdi meu violão.” Jorge Costa, gargalhando, começou o samba ali mesmo: “Triste madruga foi aquela/ Em que perdi meu violão/ Não fiz serenata pra ela/ E nem cantei uma linda canção", que virou grande sucesso, na voz de Jair Rodrigues.”

Triste madrugada foi aquela
Que eu perdi meu violão.
Não fiz serenata pra ela
E nem cantei uma linda canção.


Uma canção para quem se ama,
Que sai do coração dizendo assim:
Abre a janela,
Abre a janela, amor.
Dê um sorriso
E jogue uma flor para mim.

A verdadeira falsa baiana

Na noite de segunda-feira do carnaval de 1944, Roberto Martins estava no Café Nice, conversando com Geraldo Pereira, quando chegou sua esposa, dona Isaura, fantasiada de baiana. Acontece que, não tendo temperamento carnavalesco, a Senhora Martins era a própria imagem da desanimação, em contraste com os foliões, o que levou o marido a observar: “Olha aí, Geraldo, a falsa baiana...”. O que Roberto não sabia era que, inconsciente, estava oferecendo a Geraldo Pereira o mote para ele criar “Falsa Baiana”, o maior sucesso de sua carreira. Neste samba de ritmo sacudido, bem característico de seu estilo, Geraldo estabelece uma divertida comparação entre a falsa baiana – que “Só fica parada / não canta, não samba /não bole, nem nada” – com a verdadeira – “Que mexe, remexe /dá nó nas cadeiras / e deixa a moçada com água na boca”. A originalidade melódica, o deslocamento da acentuação rítmica e o ritmo interno das construções verbais, independentes da melodia. Tudo isso seria valorizado na interpretação inconfundível de seu lançador, o grande sambista Cyro Monteiro. Uma curiosidade: antes de entregar “Falsa baiana” a Cyro, o autor mostrou-a ao cantor Roberto Paiva, que a rejeitou. “Era de madrugada – relembra Piva – e o Geraldo, meio alto, cantou enrolando as palavras, dando a impressão de que o samba estava quebrado. Um mês depois, ao ouvi-lo na voz do Cyro, descobri que aquela beleza toda era o samba que o Geraldo me oferecera”.


Baiana que entra no samba e só fica parada
Não samba, não dança, não bole nem nada
Não sabe deixar a mocidade louca
Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira
Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras
Deixando a moçada com água na boca

A falsa baiana quando entra no samba
Ninguém se incomoda, ninguém bate palma
Ninguém abre a roda, ninguém grita ôba
Salve a bahia, senhor

Mas a gente gosta quando uma baiana
Samba direitinho, de cima embaixo
Revira os olhinhos dizendo
Eu sou filha de são salvador

Foi em maio, em 1955, dia 8, que o grande compositor Geraldo Pereira desentendeu-se no balcão do restaurante Capela com Madame Satã, levou um soco e foi internado no Hospital dos Servidores. De onde não saiu mais, apesar da causa da morte ter sido uma hemorragia digestiva.





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