segunda-feira, 14 de abril de 2014

Laurindo Rabelo

(1826 – 1864)




Laurindo Rabelo (Laurindo José da Silva Rabelo), médico, professor e poeta, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 8 de julho de 1826, e faleceu na mesma cidade, em 28 de setembro de 1864. É o patrono da Cadeira n° 26, por escolha do fundador Guimarães Passos.

Era filho do oficial de milícias Ricardo José da Silva Rabelo e de Luísa Maria da Conceição, ambos mestiços e gente humilde do povo carioca. Pretendendo seguir a carreira eclesiástica, cursou as aulas do Seminário São José e recebeu as ordens, mas abandonou o seminário por intrigas de colegas. Fez estudos na Escola Militar, outra vez tentando em vão fazer carreira. Ingressou no curso de Medicina no Rio, concluindo-o na Bahia, em 1856, vindo, porém, defender tese na cidade natal. Em 1857, ingressou como oficial-médico no Corpo de Saúde do Exército, servindo no Rio Grande do Sul, até 1863. Neste ano voltou ao Rio, como professor de História, Geografia e Português no curso preparatório à Escola Militar. Em 1860, casara-se com D. Adelaide Luiza Cordeiro, e só a partir de então pôde livrar-se da pobreza que lhe marcou a existência. Atacado por uma afecção cardíaca, faleceu, aos 38 anos de idade.

Como curiosidade, selecionamos alguns poemas de Laurindo Rabelo. 
Um sério (readaptado), dois satíricos e uma glosa.


Conta e tempo

Soneto de Frei Antônio das Chagas, escrito por volta de século XVII.
O poeta carioca Laurindo Rabelo (1826 – 1864) 
readaptou o poema por volta de 1850.

Deus pede estrita conta de meu tempo,
E é forçoso do tempo já dar conta;
Mas, como dar sem tempo tanta conta,
Eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo,
Dado me foi bem tempo e não foi conta.
Não quis sobrando tempo fazer conta,
Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta
Não gasteis esse tempo em passatempo:
Cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, oh! se os que contam com seu tempo,
Fizessem desse tempo alguma conta,
Não choravam como eu, o não ter tempo.


Soneto Monárquico

A fêmea capixaba deu entrada
No seu leito ao monarca brasileiro,
Que nos gozos de amor, hábil, matreiro,
A sujeita deixou logo emprenhada.

Um jumento pariu! (Pobre coitada!)
Tem do Mattoso o rosto traiçoeiro,
Do Monte Alegre as patas, e o traseiro
É a cara do Olinda retratada.

Tem do Torres a força inteligente,
Do Manuel Felizardo a prenda brava,
Com que raivoso vinga-se da gente.

Quando Jobim, parteiro, o apresentava
Todo o povo dizia geralmente
Que de tal pai, tal filho se esperava.


As rosas do cume (*)

No cume da minha serra
Eu plantei uma roseira,
Quanto mais rosas brotam
Tanto mais o cume cheira.

À tarde, quando o sol posto,
E o vento no cume adeja,
Vem travessa borboleta,
E as rosas do cume beija.

No tempo das invernadas,
Quando as plantas do cume lavam,
Quanto mais molhadas eram
Tanto mais o cume davam.

Mas se as águas vêm correntes,
E o sujo cume limpam,
Os botões do cume abrem,
As rosas do cume grimpam.

Tenho, pois, certeza agora
Que no tempo de tal rega,
Arbustos por mais cheirosos
Plantado no cume pega.

Ah! Porém o sol brilhante
Seja logo a catadura;
O calor que a terra abrasa
As águas do cume chupa!


(*) Existe um poema parecido com este que é muito popular, mas o verdadeiro foi composto por Laurindo Rabelo, o Bocage brasileiro.


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