domingo, 20 de abril de 2014

Lorenzo e Jéssica



Lorenzo: A lua está brilhante. Em uma noite assim como esta, quando o doce vento beijava gentilmente as árvores e elas não faziam nenhum ruído – em uma noite como esta, Tróilo, parece-me, escalou as muralhas de Troia e suspirou do fundo da alma diante das tendas gregas, onde dormia Créssida naquela noite.

Jéssica: Em uma noite como esta, Tisbe caminhava temerosa pelo orvalho e viu a sombra do leão antes de ver o próprio, e correu de lá assustada.

Lorenzo: Em uma noite como esta, Dido postou-se com um ramo de salgueiro nas mãos, de pé na praia deserta, e acenou para que seu amor voltasse a Cartago.

Jéssica: Em uma noite como esta, Medeia juntou as ervas encantadas que rejuvenesceram o velho Éson.

Lorenzo: Em uma noite como esta, Jéssica escapou da casa do rico judeu e, com um pródigo amante, fugiu de Veneza até Belmonte.

Jéssica: Em uma noite como esta, o jovem Lorenzo jurou que a amava, roubando-lhe a alma com muitos votos de fidelidade, e nem um deles sincero.

Lorenzo: Em uma noite como esta, a bela Jéssica, como uma pequena megera, caluniou seu amado, e ele a perdoou.
  
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  (“O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare, 1564-1616)


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