domingo, 13 de abril de 2014

Nó Górdio



(de Maria Alice Jiquiriça Coelho, na coluna de Jô Soares, Revista Veja)

Um professor de História suíço veio ao Brasil para avaliar o nível do nosso ensino. Assim que chegou, pediu para ser levado a uma das melhores escolas públicas de nossa cidade. Entrou na sala de aula que abrigava a turma mais preparada e dirigiu-se ao melhor aluno da classe:

- Quem cortou o nó górdio?

- Juro que não fui eu, moço. Nem ninguém aqui da sala. Pode ser alguém do colégio, mas colega meu não foi. Ponho a mão no fogo por eles.

Horrorizado, o suíço contou o ocorrido para a professora:

- Imagine a senhora que eu perguntei àquele jovem quem foi que cortou o nó górdio e ele me respondeu que não foi ele. Garantiu também que não foi nenhum menino que conheça.

A professora retrucou:

- Bom, se ele disse que não foi ele, o senhor pode acreditar. Esse rapaz, além de muito estudioso, é incapaz de uma mentira.

Assombrado, o professor suíço entrou no gabinete da diretora do colégio:

- Francamente, não sei o que se está passando. Perguntei ao melhor aluno da turma mais preparada quem tinha cortado o nó górdio; ele me assegurou que não foi ele nem nenhum dos seus amigos. Contei o episódio para a professora e ela corroborou a versão do aluno!

A diretora, indignada com o fato, adiantou:

- Meu caro senhor, se a professora confirmou, é porque é verdade. Ela conhece muito bem os seus alunos e é uma pessoa da maior idoneidade. Há anos que trabalha no nosso estabelecimento. O jovem em questão tem muito caráter. Se tivesse sido ele, confessaria na hora. Se fosse o Juquinha, um ruivinho sardento, eu nem diria nada, porque ele é muito mentiroso.

Pasmo, o professor de História suíço deixou o educandário e foi procurar o político que o havia convidado para vir ao Brasil. Depois de ouvir atentamente o relato do estrangeiro, ele explicou:

- Meu querido professor, o senhor não está na Suíça. Aqui, o nível de ignorância e despreparo ainda é muito grande. Nós temos de começar tudo praticamente do zero. Está vendo as dificuldades que enfrentamos? Mas não quero que o senhor volte ao seu país levando uma má impressão. Se alguém cortou mesmo esse tal de nó górdio, e dá para consertar, diga logo de quanto foi o prejuízo eu pago do meu próprio bolso.


MORAL: Não tem moral.



GÓRDIO                               -  Rei da Frígia, antiga Ásia Menor.
NÓ GÓRDIO                        -  Nó que é impossível de ser desatado.
CORTAR O NÓ GÓRDIO  -  Resolver uma grande dificuldade com rapidez e/ ou violência.
                                                     

(Segundo a lenda, o nó górdio prendia o timão ao jugo da carreta do rei Górdio, da Frígia e quem o desatasse seria o senhor da Ásia. Pois Alexandre Magno, diante do nó, por volta de 330 a.C., cortou-o com sua espada e invadiu a Ásia.)


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