terça-feira, 1 de abril de 2014

O acordar do 22


Por Alphonse Allais

Segunda-feira, ri a bom rir, ri gostosamente. E quando me lembro, rio ainda.

Passara o dia de domingo em Versailles com alguns dos debochados meus amigos.

O dia correra calmo, mas a noite não se passou sem a mais libertina das orgias. Foi de tal forma que perdi o último comboio para Paris.

Uma grande dúvida me assaltou; devia voltar para os maus antros por onde andara, ou devia ir deitar-me burguesmente nalgum hotelzinho tranqüilo?

O meu anjo da guarda soprou sobre a minha fronte, dispersando as vis inspirações do demônio, e eu segui o caminho da virtude.

O porteiro do hotel, acordado sem dúvida de qualquer sonho dourado, fez-me uma recepção onde não brilhava o entusiasmo.

No entanto, participou-me que eu iria ocupar o vinte e um.

Esquecia-me de dizer-lhes que eu precisava regressar a Paris, no dia seguinte, muito cedo. Mas este esquecimento não tem nenhuma importância e há tempo ainda de os avisar deste detalhe.

No escritório do hotel estava pendurada uma ardósia, como as que os meninos usam na escola, onde os viajantes escrevem a hora em que desejam ser acordados.

Eu tive sempre horror de acordar em sobressalto. E por isso, desde há muito tempo, arranjei o hábito de inscrever, não o número do meu quarto mas os dois quartos contíguos.

Por exemplo: durmo no 21, inscrevo, para ser acordado a tal hora, o 20 e o 22.

Por este processo, o despertar é menos brusco. (Este truque recomendo-o especialmente aos caixeiros viajantes um pouco nervosos).

A noite que passei nessa hospedaria foi calma e repleta de sonhos cor de rosa.

De madrugada, ruídos espantosos arrancaram-me do feliz e tranqüilo sono.

Uma voz que tinha um pouco de rugir de leão e de canto de galo, ressoava através das paredes:

- Que tenho eu com isso, sua cavalgadura, que sejam seis horas e meia? Animal! Estúpido!

Era o 20 que assim agradecia ao criado do hotel tê-lo ir acordar à hora marcada.

Eu ria-me de tal forma, que mal podia manter-me silencioso.

Quanto ao 22, a coisa foi ainda mais épica.

O criado bateu à porta:

- Pam! Pam!

- O que é? – disse semiacordado o 22 – quem está aí?

- São seis e meia.

- Ah!

O criado afastou-se.

Encostei o ouvido ao tabique que me separava do 22 e ouvi-o murmurar, com uma voz muito ensonada: “Seis e meia! Seis e meia! Mas que teria eu que fazer esta manhã?”

Saiu do hotel ao mesmo tempo que eu.

Era um homem de aspecto tranqüilo, mas cuja placidez evidente se perturbava momentaneamente por aquela preocupação matinal.

Cheguei à estação rapidamente, mas não sem me voltar, de vez em quando, para ver o pobre 22.

Vi-o ainda; estava a olhar o céu, com um olhar desencorajado, e adivinhei pelo movimento dos lábios, quer murmurava: “Que diabo tinha eu que fazer esta manhã? Seis horas e meia... seis horas e meia!”.

Pobre 22!


(Do Livro “Enciclopédia de Humorismo” 
– Traduzido por FilipeTores)


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