terça-feira, 1 de abril de 2014

O Ateneu




(Fragmento)

Raul Pompeia

      Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos que me divertia. O Gualtério, miúdo, redondo de costas, cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio - palhaço dos outros, como dizia o professor; o Nascimento, o bicanca, alongado por um modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo uma foice; o Álvares, moreno, cenho carregado, cabeleira espessa e intonsa de vate de taverna, violento e estúpido, que Mânlio atormentava, designando-o para o mister das plataformas de bonde, com a chapa numerada dos recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o Almeidinha, claro, translúcido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que se levantava para ir à pedra com um vagar lânguido de convalescente; o Maurílio, nervoso, insofrido, fortíssimo em tabuada: cinco vezes três, vezes dois, noves fora, vezes sete?... lá estava Maurílio, trêmulo, sacudindo no ar o dedinho esperto... olhos fúlgidos no rosto moreno, marcado por uma pinta na testa; o negrão, de ventas acesas, lábios inquietos, fisionomia agreste de cabra, canhoto e anguloso, incapaz de ficar sentado três minutos, sempre à mesa do professor e sempre enxotado, debulhando um risinho de pouco vergonha, fazendo agrados ao mestre, chamando-lhe bonzinho, aventurando a todo ensejo uma tentativa de abraço que Mânlio repelia, precavido de confianças; Batista Carlos, raça de bugre, válido, de má cara, coçando-se muito, como se o incomodasse a roupa no corpo, alheio às coisas da aula, como se não tivesse nada com aquilo, espreitando apenas o professor para aproveitar as distrações e ferir a orelha aos vizinhos com uma seta de papel dobrado. Às vezes a seta do bugre ricochetava até a mesa de Mânlio. Sensação; suspendiam-se os trabalhos; rigoroso inquérito. Em vão, que os partistas temiam-no e ele era matreiro e sonso para disfarçar.

        Dignos de nota havia ainda o Cruz, tímido, enfiado, sempre de orelha em pé, olhar covarde de quem foi criado a pancadas, aferrado aos livros, forte em doutrina cristã, fácil como um despertador para desfechar as lições de cor, perro como uma cravelha para ceder uma idéia por conta própria; o Sanches, finalmente, grande, um pouco mais moço que o venerando Rebelo, primeiro da classe, muito inteligente, vencido apenas por Maurílio na especialidade dos noves fora vezes tanto, cuidadoso dos exercícios, êmulo do Cruz na doutrina, sem competidor na análise, no desenho linear, na cosmografia.

       O resto, uma cambadinha indistinta, adormentados nos últimos bancos, confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala.


§ § §
“A escola é um mundo onde a gente pode até errar, 
fazer de novo e acertar.”

Raul Pompeia

Raul d'Ávila Pompeia (Angra dos Reis, 12 de abril de 1863  Rio de Janeiro, 25 de dezembro de 1895) foi um escritor brasileiro, representante do impressionismo na Literatura Brasileira. Seu livro mais importante foi O Ateneu, de 1888, que inserido entre as obras do Realismo.

Neste livro é narrada a história de Sérgio, já adulto, relembrando sua infância, quando aos onze anos foi estudar no internato, Ateneu, o colégio de maior prestígio na época, com seu grande diretor Aristarco, depois de ter estudado em uma pequena escola e recebido estudo em casa, foi sempre coberto de amor.

Durante o primeiro ano fez muitas amizades. Rebelo que lhe apresentou a escola e seus alunos cada qual com seu caráter. Saches, o mais velho, o salvara de um afogamento na piscina, mas depois de uma briga se tornaram de certa forma inimigos. Franco, um menino mal comportado se envolveu em uma confusão com Sérgio, Franco jogou cacos de vidro na piscina, mas por sorte e para alívio de Sérgio nada aconteceu.

Barreto que lhe afirmava que a mulher era um demônio, fato que segundo Sérgio veio a ser comprovado quando dois homens na luta pelo amor de Ângela, camareira da casa de Aristarco, brigaram, um morreu e outro foi preso.

Depois ao interessar-se pela biblioteca e os livros fez mais duas amizades, Júlio Verne e Bento Alves, ambos mais velhos.

Bento e ele tinham uma amizade de irmãos. Bento o protegia e foi por isso que depois de muitas implicâncias entrou em uma briga com Malheiro. Nesses tempos Sérgio recuperou seu rendimento, pois o ano letivo estava para acabar. Iniciou-se na escola uma “moda” entre os alunos, a de colecionar selos, depois dessa veio a exposição artística e assim ano acabou.

O primeiro ano no Ateneu acabou, durante as férias Sérgio e Bento se encontraram e ao voltarem ao colégio mantiveram sua amizade. Nesse segundo ano passou por momentos divertidos, entre desfiles e piqueniques com chuva, mas sem explicação um dia brigou com Bento rompendo a amizade. Bento saiu da escola, Sérgio teve uma desavença com Aristarco sem resultados.

Viveu ainda o castigo por causa de travessuras, fez então uma nova amizade, Egbert, com esse tinha uma amizade fraternal e grandiosa, mas depois de um jantar na casa do diretor, a amizade de Sérgio ficara no passado. Foi transferido para o dormitório dos rapazes mais velhos onde participou de passeios clandestinos durante a noite.

Assim o segundo ano no Ateneu seguiu, com as férias Sérgio adoeceu, sarampo, ficou sob os cuidados do diretor, já que sua família viajava para a Europa. Por esses dias em que permaneceu doente viu em D. Ema, mulher de Aristarco, uma mãe, nem se lembrando mais da verdadeira, ansiava o encontro a cada manhã com D. Ema.

Em uma manhã, a ruína do Ateneu chegou, todos gritavam por fogo, Sérgio saiu de sua cama e percebeu que estava tudo a arder em chamas. Ao fim, parte da escola estava carbonizada, o culpado do incêndio proposital era Américo um aluno recém chegado que fora deixado ali contra a vontade, o pai pediu a Aristarco que lhe curasse o mau comportamento. Durante o incêndio D. Ema desapareceu.

          Com o fim do Ateneu, Sérgio encerrou suas memórias.

Por Rebeca Cabral

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