sábado, 19 de abril de 2014

O Campeonato de trova




O “Grande Rodeio Coringa”, programa de Darci Fagundes na Rádio Farroupilha, aos domingos à noitinha, foi recordista na preferência dos ouvintes.

Certa ocasião, seu apresentador, ao iniciá-lo, foi logo informando “à distinta audiência, espalhada por todo o Rio Grande do Sul e de Santa Catarina”, que a transmissão, naquela noite, era externa, diretamente da praça principal de São Leopoldo, onde fora montado um palanque especial.

– Chega de conversa fiada – disse Fagundes, com seu forte sotaque de gaúcho da fronteira – que hoje é a semifinal do campeonato estadual de trova. Vamos de uma vez às apresentações. Temos aqui este índio lá de Santiago, uma barbaridade de grosso, seu Dagoberto Paranhos; e, neste outro lado, este não menos barbaridade de grosso índio de São Jerônimo, o seu Manoel Camargo. E toca duma vez a sanfona, Osvaldinho, que este povaréu quer é ver peleia da braba!

A gaita deu os acordes iniciais e os contendores começaram a alternar-se nas trovas. Contudo, ao invés de versos provocantes, lances irônicos e habilidade verbal, o público assistia a uma sucessão de versos chochos, desmotivados, construídos sem originalidade, só contendo elogios recíprocos. No meio de um dos cantos, Fagundes interveio:

– Um momentinho. Vamos parar um pouco. Eu estou vendo que estes índios estão muito encabulados, ou são educados demais. A gente entende, afinal é a primeira vez que eles vêm a uma cidade grande como São Leopoldo. Mas, o que este povo e os ouvintes de casa querem é ver vocês se pegando, se atacando feio, que nem briga de foice, e não essa troca de gentilezas. Isto está triste como “carancho em tronqueira”. Vamos botar “fogo nas canjica”, compadre! Começa tudo de novo! E abre a gaita, Osvaldinho!

Os contendores recomeçaram, seguindo à risca as instruções recebidas. Os elogios então cessaram; com isso: tua terra não é tão boa, tuas mulheres sabe-se como são, o teu jeito é meio esquisito... até que o representante de São Jerônimo cantou os seguintes versos:

“Índio lá de Santiago
Hoje eu te boto os freio
Trepo em riba do teu lombo
Despois de botá os arreio
Te dou com o mango nas anca
Te deixo de cu vermeio.”

Neste último verso a transmissão foi cortada. Passou-se então a ouvir suave música incidental, de orquestra de cordas, posta pelo estúdio em Porto Alegre. Minutos depois, voltou a voz de Fagundes:

– Eu queria pedir desculpas aos nossos milhares de ouvintes de casa e a esta multidão que está aqui nos prestigiando com seu comparecimento. Mas é que o índio de São Jerônimo é grosso demais!

E dirigindo-se ao faltoso:

– Como é que o senhor me diz uma coisa dessas, seu Manoel? E o respeito, onde fica? O senhor não sabe que há autoridades civis, militares e eclesiásticas em cima deste palanque? E as senhoras e senhoritas presentes, então, como é que ficam? E este povo todo?

Enquanto recebia a censura, o acusado estava de braços cruzados sobre o peito, sacudindo a cabeça baixa, sobre a qual tinha um chapelão, enquanto olhava a ponta das botas. A imagem exata do “que barbaridade, como é que mescapô!?”

Fagundes seguia a peroração:

– Mas, tudo bem, eu já falei com os índios. Eles me disseram que aqui pra frente vão se comportar. Assim que continua a trova! Dá-le, Osvaldinho, que a vez é do índio de Santiago.

A gaita puxou, chorosa, os acordes já consagrados, terminou a introdução, deu a chamada e o representante de Santiago – que precisava continuar – reiniciou atavicamente, da única forma que conhecia:

– “Me deixou de cu vermeio”...

Acabou com a transmissão.


(Do livro “Anedotário da Rua da Praia”, de Renato Maciel de Sá Júnior)






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