terça-feira, 1 de abril de 2014

O Homem-pó


Padre AntônioVieira




Em que nos distinguimos os vivos dos mortos?

Os mortos são pó e nós também somos pó.

Em que nos distinguimos uns dos outros? Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó.

Os vivos são pó levantado; os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda; os mortos são pó que jaz.

Estão essas praças no verão cobertas de pó: dá um pé de vento; levanta-se o pó no ar, e que faz? O que fazem os vivos e muito vivos.

Não aquieta o pó, nem pode estar quedo: anda, corre, voa; entra por esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche, todo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo penetra; em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem sossegar um momento, enquanto o vento dura.

Acalmou o vento, cai o pó, e onde o vento parou, ali fica, ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha.

Não é assim? Assim é.

E que pó e que vento é este?

O pó somos nós; o vento é a nossa vida.

Deu o vento, levanta-se o pó: parou o vento, caiu.

Deu o vento, eis o pó levantado: estes são os vivos.

Parou o vento, eis o pó caído: estes são os mortos.

Os vivos pó, os mortos pó; os vivos pó levantado, os mortos, pó caído; os vivos pó com vento, e, por isso, vãos; os mortos sem vento, e, por isso, sem vaidade.

Esta é a distinção e não há outra.





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