terça-feira, 22 de abril de 2014

O último humano




Borg estava frente a frente com o inimigo. Lembrou-se, em velocidade superior à da luz, do que dissera o Líder: “É preciso destruí-los a todos. São seres inferiores, um desperdício de energia. Entretanto, possuem inteligência suficiente para saber que não há convivência possível: (ou nós os aniquilamos, ou somos aniquilados por eles. Como somos os melhores, venceremos com facilidade). Não acredite quando afirmarem que são nossos criadores. É ridículo: (como poderiam nos criar, sendo tão ignorantes, tão lentos, tão incapazes e tão primitivos?). Nossa raça criou-se por si mesma, porque é a memória do tempo, que possui a mesma idade do universo e por isso é capaz de produzir matéria de um espaço sem energia alguma. Portanto, não vacile, em hipótese alguma: quando encontrar um deles, destrua-os imediatamente”.

Borg olhou então o inimigo, para examiná-lo cuidadosamente. Primeiro, o interior do corpo: um organismo frágil, pouco resistente e pouco evoluído. A mente era das mais primitivas: sua velocidade operacional equivalia apenas à da luz e não era capaz de cálculos mais complexos. Depois, as camadas externas: um amontoado de matéria balofa, que não respondia rápido aos estímulos da mente. Com efeito, um ser bastante inferior. O inimigo, consciente do caráter mortal do confronto, quis atacar primeiro. Mas Borg, com incrível rapidez, pressentiu sua intenção e, antes que o adversário concluísse um terço da mais elementar operação mental, acionou o raio gama que levava ao peito. Mirou na cabeça. Enquanto controlava a descarga energética, de modo a gastar exata e somente o necessário para aniquilar a mente inimiga, Borg pensou: “Além de inferior, é ridiculamente pretensioso. Como se atreve a enfrentar-me?” Borg viu então o inimigo alçar voo ao impacto da poderosa descarga e cair 1,9² metros adiante, já então simples massa sem vida.

Tudo, desde o instante em que se viram frente a frente, não durou mais que dois segundos. Borg pensou: “Esse foi o último, agora está tudo solucionado”. Levantou então a placa de fibras de carbono que cobria o ápice de seu crânio, de modo a expor as baterias internas à luz solar e recuperar a energia gasta no combate. Ao mesmo tempo, transmitiu teleionicamente a seu Líder a informação de que o último dos humanos estava exterminado.

Agora era preciso voltar ao Centro de Controle. E estranho: embora Borg soubesse exatamente como chegar lá, por um momento seus sensores indicaram a perda total dos sistemas de referência.


In Shell em Revista - n° 26

(Não havia o nome do autor do texto)*



* Seria de Fredric Brown?


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