sexta-feira, 11 de abril de 2014

Oração da Mestra

Gabriela Mistral

(Versão de Afrânio Peixoto)




Senhor! Tu que ensinaste, perdoa que eu ensine, que traga o nome de mestre, nome que trouxeste sobre a Terra.

Dá-me o amor exclusivo da minha escola; que nem a sedução de beleza seja capaz de roubar-lhe minha ternura de todos os instantes.

Mestre, faze-me perdurável o fervor e passageiro o desencanto. Arranca de mim esse impuro desejo de justiça, que ainda me perturba, a mesquinha insinuação de protesto que em mim cresce, quando me ferem.

Dá-me o ser mais mãe que as mães, para poder amar e defender, como elas, o que não é carne de minhas carnes. Dá-me que alcance fazer, de um de meus alunos, meu verso perfeito e deixar nele gravada minha mais penetrante melodia, para quando meus lábios emudecerem.

Mostra-me possível teu Evangelho em meu tempo, para que não renuncie à batalha de cada dia e de cada hora por ele.

Põe em minha escola democrática o resplendor que aureolava teu séqüito de meninos descalços.

Faze-me forte, inda na minha fraqueza de mulher e mulher pobre. Faze-me desprezadora de todo o poder que não seja puro, de toda a pressão que não seja a de tua vontade ardente sobre minha vida.

Amigo, acompanha-me, sustém-me! Muitas vezes não terei senão a Ti, a meu lado. Quando minha doutrina seja mais casta e mais ardente minha verdade, ficarei sem os mundanos; porém Tu me oprimirás, então contra teu coração, ele que sabes farto de solidão e desamparo. Não buscarei senão em teu olhar a doçura das aprovações.

Dá-me simplicidade e dá-me profundeza; livra-me de ser complicada ou banal na minha lição quotidiana.

Dá-me levantar os olhos de meu peito ferido ao entrar cada manhã em minha escola. Que não leve à minha mesa de trabalho meus pequenos afãs materiais, minhas mesquinhas dores de cada hora.

Aligeira-me a mão no gesto de repreensão e suaviza-me ainda mais no de carícia. Repreenda com dor, para saber corrigir amando!

Faze-me que faça, de espírito, minha escola, de tijolos. Envolva na chama de meu entusiasmo seu átrio poder, a sua sala nua. O meu coração lhe seja mais coluna e minha boa vontade mais ouro que as colunas e o ouro das escolas ricas.

E, por fim, recorda-me, da palidez da tela de Velásquez, que ensinar a amar intensamente sobre a terra é chegar ao último dia com a lançada de Longinos, no flanco ardente de amor.


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