terça-feira, 1 de abril de 2014

Pequemas galáxias imperfeitas


Liberato Vieira da Cunha


De que nos compomos?
Suponho que de umas centenas de bilhões de pequenas galáxias imperfeitas.
Quem as habita?
No lado oculto, onde já cessou o clarão do derradeiro Big-Bang,
miríades de espectros, como o medo, a insegurança,
a culpa, a angústia, a dor, a perda.
No lado oposto, o envolto em luz,
uma esquiva constelação de reflexos que atendem por plenitude,
serenidade, harmonia, sonho, juventude, amor.
Como são esses espectros, como são esses reflexos?
O medo é quando te distrais de tua íntima fortaleza,
e a renegas e a ignoras e a escondes de ti mesmo.
A insegurança é quando só estás seguro de tua fragilidade,
como se fosse erro ser às vezes frágil,
é quando só estás certo de tuas perguntas sem respostas,
como se fosses obrigado a tudo saber.
A culpa é quando tomas a ti o peso dos desconsertos do mundo
e te sentencias a penas inúteis,
como o remorso da argila ancestral de que também és feito.
A angústia é quando te inquietas pelas coisas inevitáveis
aquelas que, estava escrito, seriam desde sempre ou insolúveis ou inatingíveis.
A dor é quando te atingem indefeso,
momentaneamente desatento da armadura interior que te recobre.
A perda é quando muito te concentras no que poderia ter sido;
é quando pouco te apercebes de tudo quanto continuará a ser.
A plenitude é quando teu presente se constrói tão intenso que se detém nas horas,
como naquele relógio improvável, posto que real, da tela de Salvador Dali.
A serenidade é quando se apazigua teu coração e se aquieta tua alma,
sem que com isso renuncies ao fruir de teus sentidos.
A harmonia é quando te encontras em sintonia com quem convives,
sem abrires mão dos dons que te tornam único na adversidade.
O sonho é quando eleges o norte que dará prumo à tua vida;
é a distante estrela que persegues, não por alguma recompensa,
mas pelo desafio da busca.
A juventude é quando em ti conservas desejos, aspirações,
um jeito inaugural de te maravilhares,
Não importa a idade te queiram atribuir.
Quanto ao amor, nada é preciso dizer.
Contempla aquela praça.
Vê em que ternos jogos emergem nesta manhã aqueles dois adolescentes.
Pois para eles não há espectros.
E formam ambos uma constelação de reflexos em que orbitam o claro olhar da moça
e o modo brando com que o rapaz a enlaça.
E em verdade creio que nada de melhor
neste instante
todos os bilhões de GALÁXIAS IMPERFEITAS.


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