quinta-feira, 3 de abril de 2014

Pequenas histórias gauchescas



Os vizinhos

O vizinho – um gaudério de quatros costados – olhava cobiçoso para as vizinha, mas não tinha coragem de abordá-la. Até que um dia venceu o constrangimento e foi procurá-la:

 Pois olha, vim aqui pra transar com a vizinha ou pra  tomar um mate – disse-lhe, sem rodeios.

A vizinha demorou um pouco e respondeu:

 Pois, vizinho, não é que o senhor me pegou sem erva!


*****

O preço de uma empulhação

Buenas, compadre! Como le vai? Que cara é essa de quem comeu e não gostou?

 Não é pra menos. Parece que o diabo anda sorto...

 Que foi que le aconteceu?

 A mim, nada. Mas sube agora mesmo de uma desgraça na Fazenda da Coronilha...

 Então, desembuche de vereda...

 Diz que a peonada estava no galpão, mateando e charlando, quando o Toríbio, aquele da Maria Chininha, perguntou, assim pra todos:

 Pois estou disposto a pagar um trago de canha, no boliche do Chico Rengo, pra quem me arresponder ligeiro, sem pensar munto, qual é a mulher do touro?

 Ora, é a vaca... – foi dizendo logo o índio Desidério, que estava escorvando os dentes com a ponta da faca.

 Pois não é! – respondeu o Toríbio.- Vaca é a mãe...

 Foi a conta. Diz que o Desidério saltou como um gato pra riba do rapaiz e lhe pregou um pranchaço pelas guampas que o fez testavilhar e, sem dar tempo que apartassem, passou-lhe a traíra por baixo da queixada, fazendo o sangue espirrar da veia-artéria como se fosse um chafariz e ali mesmo ficou no mais pataleando!

 Mas que barbaridade!

 Sim, mas não é assim também que se ofende a mãe de um vivente.


(“Barão de Itararé – Almanaque de 1949”)


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