sábado, 19 de abril de 2014

Perdizes ao Molho Madeira




Apanha cinco perdizes e cinco garrafas de bom vinho Madeira. Abra uma perdiz e tire-lhe as penas. Abra uma garrafa de vinho madeira e despeje, sem pena, num copo o seu conteúdo. Beba-o todo, para ver se é bom mesmo. Não vá ser falsificado. Se ficar na dúvida, encha outro copo e beba-o devagar. Estale a língua no céu da boca. É bom? Ah! Então tome mais um traguinho e depois acenda o fogão, ponha a panela no fogo lento e vá despejando, aos goles, o conteúdo da garrafa e vá sorvendo aos poucos a madeira que está no copo. Pegue a perdiz, sem penas, atire-a dentro da panela, que já deve estar ao rubro, abra depressa outra garrafa e vá bebendo, trago a trago, para não esfriar. Apanhe outra perdiz, medite um instante sobre a maldade dos homens com as pobres avezinhas e atire-a, com pena, na panela. Abra as outras garrafas de vinho, despejando sempre o seu conteúdo no copo, atire no lixo as vazias, tome um gole de perdiz da panela para ver se está seca ou molhada, molhe a garganta mais uma vez e leve, com passo incerto, mas com muita dignidade, a panela diretamente para a mesa, onde estão os convidados esperando. Deixe as perdizes sobre a madeira, com muita pena para que cada um se sirva à vontade, como manda o protocolo.

Monólogo



Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher disse para despejar todas na pia, porque senão...

- Assim seja! Seja feita a vossa vontade – disse eu, humildemente, e comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa.

Tirei a rolha da primeira garrafa e despejei o seu conteúdo na pia, com exceção de um copo que bebi.
Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo que virei.

Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceção de um copo que empinei.

Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa que bebi.

Apanhei a quinta rolha na pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa por exceção.

Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha.

Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da garrafa, arrolhei o copo e bebi por exceção.

Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas que escondi atrás do banheiro, parra lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito de acordo com as ordens de minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau gênio que tem.

Segurei, então, a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos e pias, que eram, ao todo, exatamente 39. Para me certificar de que não havia engano, contei tudo outra vez e quando terminei já encontrei um total 93, o que dá certo, quando as coisas andam de perna para o ar. Como a casa nesse momento passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para controlar minhas contas e recontei todas as casas, copos, rolhas, pias e garrafas, menos aquelas duas que escondi no banheiro e que eu acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca...

(Máximas e Mínimas do Barão de Itararé)



Nenhum comentário:

Postar um comentário