sábado, 12 de abril de 2014

Poemas gauchescos

Cuia


Cuia morena queimada
confeccionada a lo bruto,
rude cálice matuto
de amarguentas comunhões,
na tradição campechana
serves o vinho que irmana
dono de estância e peões.

Velho utensílio crioulo
da utilidade nativa,
que misturando saliva
no ritual dos chimarrões,
estarrece gente estranha
que não sabe que a campanha
não conhece convenções.

Quando em teu bojo recebes
a erva do chimarrão
e da tua carnação
verde o sangue se desata,
me entristeço, imaginando,
que és um coração sangrando
por uma artéria de prata!

 No Bolicho



Traga de vez a garrafa,
bolicheiro! me despacha,
que hoje no mais se emborracha
quem nunca se emborrachou.
Quero beber no gargalo
para esquecer o pialo
que o tal de amor me atirou.
Sou índio duro de queda
mas fui pegado de jeito.
Bateu-me a argola no peito
e ali no mais me planchei.
Sempre fui solto de pata
mas nessa volteada ingrata
num tacuru tropecei!
Sucede que eu não sabia
quanta manha se requer
pra se correr com mulher
na cancha reta do amor.
Desci confiado pra raia...
Perdi pro rabo de saia
sem sair do partidor!
Caí no tiro de laço
de um olhar de china atrevida,
que embuçalou minha vida
na armada negra das tranças,
pra depois de ter-me preso
marcar-me com seu desprezo
na picanha da esperança
Desprezo não há quem cure, 
não há remédio que impeça, 
não há reza, nem promessa 
que lhe conserte o estrago. 
Por isso, seu bolicheiro, 
pra aparceirar o primeiro 
ponha no mais outro trago! 


Poemas de Apparício Silva Rillo


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