terça-feira, 22 de abril de 2014

Poemas-requerimentos

Considerando que ele acabou com o Orçamento Participativo nos moldes que vinham dando certo em Porto Alegre.

Futuramente, quando pretender alguma melhoria na sua rua ou no seu bairro, faça requerimento a ele como fizeram os dois poetas abaixo e veja se consegue alguma coisa.


Petitório

Vinicius de Moraes

 
          

O poeta Vinicius de Moraes, quando morava em Itapoã, enviou petição rimada ao prefeito Cleriston Andrade, através das páginas do jornal A Tarde, clamando:

Prefeito Cleriston Andrade
A quem não conheço,
quero tomar a liberdade
que eu nem sequer sei se mereço
de vir perdir-lhe, em causa justa,
um obséquio que seu favor
muito honraria (e pouco custo)
ao Prefeito de Salvador.

Existe ali no principado
livre e autônomo de Itapoã
uma ruazinha que sem embargo
pertence a sua jurisdição
uma rua não sem poesia
e cujo título é dar teto
a uma das glórias da Bahia:
o governador Calazans Neto.
Dizer do estado desta ruela
(das Amoreiras) eu não arrisco
porque sem esgotos, correm nela
rios de * valha-me o asterisco.

E isso é uma pena, Senhor Prefeito,
pois Calazans e sua gravura
têm cada dia mais procura
de fato como de direito:
o que constrange os visitantes
com boa margem de estrangeiros
é, entre gravuras fascinantes,
ver quadros nada lisonjeiros.
Calce essa rua, Senhor Alcaide,
e eu lhe garanto que algum dia
“pro domo sua”, esta cidade
o há de lembrar com mais valia.

Na expectativa de que acorde
um novo “cumpra-se sem mais”
aqui se assina, muito ex-corde,
seu Vinicius de Moraes.




Carta-Poema

Manuel Bandeira



Excelentíssimo Prefeito
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,

Um poeta já sexagenário ,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,

Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.

É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!

Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.

Que imundície! Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo, papéis...
Não é natural que me queixe?
Meu prefeito, vinde e vereis!

Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!

A um distinto amigo europeu
Disse eu: - Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco, este é o
Grande Chaco! Senão, olhai!

Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis,
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois!

Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!




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