quinta-feira, 3 de abril de 2014

Se Acaso Você Chegasse

(Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins)



Boêmio e conquistador inveterado, Lupicínio Rodrigues várias vezes transformou em samba episódios de sua vida sentimental. Assim, por exemplo, “Se acaso você chegasse” é uma mensagem/sondagem que dirige a um amigo, Heitor Barros, de quem havia tomado a namorada. Lupicínio sabia que agira mal e temia perder o amigo, que muito prezava. Para evitar o rompimento, procurava convencê-lo de que a amizade dos dois era mais importante do que a mulher infiel (“Será que tinha coragem / de trocar a nossa amizade / por ela já lhe abandonou...”), ao mesmo tempo em que lhe comunicava um fato consumado (“eu falo porque essa dona / já mora no meu barraco...”) e de difícil reversão (“de dia me lava a roupa / de noite me beija a boca / e assim nós vamos vivendo de amor”) A verdade é que o poeta queria ficar com a mulher e o amigo, feito que acabou conseguindo, pois Heitor gostou do samba e perdoou a traição.

Composto em 1936, de improviso, na calçada do Café Colombo, em Porto Alegre, “Se Acaso Você Chegasse” é um dos melhores sambas de todos os tempos. Possui o mérito de ter projetado Lupicínio e Cyro Monteiro, seu intérprete inicial, em 1938.

Lupicínio Rodrigues: 19.09.1914 a 27.08.1977

Se acaso você chegasse

(Falando com um amigo com as duas mãos no seu ombro,
olho no olho...)

Se acaso você chegasse
No meu chatô e encontrasse
Aquela mulher que você gostou.
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou?
Eu falo porque essa dona
Já mora no meu barraco,
À beira de um regato
E de um bosque em flor.
De dia me lava a roupa,
De noite me beija a boca
E assim nós vamos vivendo de amor.

(Do livro “A Canção no Tempo”, Vol. 1: 1901 – 1957,
de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello)

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