segunda-feira, 14 de abril de 2014

Um desafio em 1850

Archymedes Fortini



O doutor Antão de Assis Brasil, além de conceituado médico, dedica-se a coisas do passado, possuindo precioso arquivo, teve a gentileza de nos emprestar um caderno que possui, escrito a mão, “Porfia entre os antigos improvisadores Bento Canto e o negro Pai Chunin, no município de São Luís Gonzaga, nos anos de 1850 a 1860”.

Bento era cego, residia em Passo Fundo; Chunin, escravo do major João de Melo, então fazendeiro em São Luís.

Os poucos versos que vão a seguir representam o começo e o fim da célebre “porfia”. O citado caderno era do major Quintino Nunes pereira, que contando 70 anos de idade e residindo em santo Ângelo, ofereceu-o em setembro de 1932 ao Dr. Antão de Assis Brasil, com as seguintes informações:

“Conheci pessoalmente o Pai Chunin: (Chunin – chop – o passarinho (tordo) – Chopiju – passarinho preto), com 75 anos mais ou menos. Foi um verdadeiro poeta popular, um improvisador admirado e fascinante. O mesmo ouvi dizer de Bento Cantor, a quem só conheci por tradição. Na minha juventude, ouvi Chunin porfiar diversas vezes. Como improvisador, ninguém o excedeu. Era um repentista notável. Trovava com rara inteligência, naturalidade e sentimento”.

Quanto ao major Quintino Nunes Pereira, temos a informar que era culto e conhecedor de vários idiomas indígenas, sendo dele a explicação acima, sobre o nome de Chunin.

Damos a seguir a primeira parte dos versos da “Porfia entre antigos improvisadores”:


Chunin:

O ilustre Bento Cantor
Foi alferes está tenente;
Apronte seu esquadrão
Que o inimigo está na frente.

Chunin:

Com efeito, o senhor Bento
Trova verso bem bonito;
De quem tirou portaria
Pra cantar no meu distrito?

Chunin:

Me chamo Chico do Melo,
De apelido Pai Chunin
No cantar e trovar versos
Todos receiam de mim.

Chunin:

Eu sempre fui vitorioso,
Como velho trovador,
E vim do céu pra vencer
O famoso Bento Cantor.

Chunin:

Nesta renhida porfia,
Neste famoso lugar,
Hei de lhe tirar a cisma
E seu coringo quebrar.

Chunin:

O nobre Bento Cantor
Já se tornou mui falado
Mas eu não tenho receio
Porque também sou afamado.

Chunin:

Só consenti que chegasse
Aqui perto da fronteira;
Mas não pode penetrar
Dentro da minha trincheira.

Chunin:

Queira depenar as asas
E as penas me apresentar,
Que só assim poderei
Essas penas calcular.

Chunin:

Para eu subir ao céu
Não há de me custar tanto;
Só depois de minha morte
Ou logo que eu fique santo.

Chunin:

Sendo seu São Benedito,
Irei para meu lugar,
Ao lado de Jesus Cristo,
Com as imagens no altar.

Chunin:

Arrodeia o mar em roda
Todo ele de ponta a ponta,
Ponha-me os peixes pra fora
Que lhe hei de fazer a conta.

Chunin:

Eu nasci em São Luís
Daqui eu sou natural;
E se for aqui derrotado,
Paciência, não faz mal.

Chunin:

Eu sei fazer essa conta,
Se não me quero enganar:
Duzentos e vinte cinco,
Se algum ovo não gorar.

Bento:

Meu esquadrão está formado,
Tem na frente o capitão;
Nenhuma praça me falta
Para atacar seu batalhão.

Bento:

Portaria não preciso,
Ninguém me obriga a trazer:
Quem é o dono do distrito
Estamos em ponto de ver.

Bento:

Eu me chamo Bento Costa,
Por apelido – Cantor;
Pegando na minha viola,
Não temo competidor.

Bento:

Pra vencer Bento Cantor
Inda ninguém veio ao mundo;
Sou um gaúcho glorioso
Dos pagos de Passo Fundo.

Bento:

Minha cisma ninguém tira
Pra o Céu pretendo levar;
É um dote que Deus me deu
A Deus eu devo entregar.

Bento:

Sua fama corre longe
Pela região missioneira;
Foi o que me trouxe à linha
Da nossa grande fronteira.

Bento:

Responda, amigo Chunin,
Por um verso bem trovado;
Quantas penas saem das asas
De um frango bem depenado?

Bento:

Meu querido pai Chunin,
Com efeito trova bem;
Quero que suba no céu
E conte as estrelas que tem.

Bento:

Para você ficar santo
Só sendo São Benedito;
Mas nunca fará milagre:
Em santo não acredito.

Bento:

O ilustre Pai Chunin
Deverá saber contar;
Peço que me faça a conta
Dos peixes que tem no mar.

Bento:

Sou filho de Passo Fundo
Do topo de coxilhão;
Vim derrotar Pai Chunin
O tutu deste rincão.

Bento:

Uma galinha no choco,
Quinze ovos deve ter,
Cada ovo quinze pintos,
Quantos ovos vêm a ser?


(Do Almanaque do Correio do Povo de 1968)
  

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