terça-feira, 8 de abril de 2014

Vinte e uma coisas que aprendi como escritor


Moacyr Scliar


Gravura de Fraga

APRENDI que  escrever  é  basicamente  contar  histórias, e que os melhores livros de ficção que li eram aqueles que tinham uma história para contar.

APRENDI que o ato de escrever é uma sequela do ato de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.

APRENDI que, quando se começa  a  plagiar,  não  faz  mal  nenhum.  Eu copiei descaradamente muitos  escritores,  Monteiro  Lobato,  Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.

APRENDI que, quando se começa a escrever,  sempre se é autobiográfico, o que - de novo - não  prejudica.  Mas os escritores que ficam sempre na autobiografia, que só olham para o próprio umbigo, acabam se tornando chatos.

APRENDI  que,  para  aprender  a  escrever,  tinha  de escrever. Não adiantava só ficar falando de como é bonito (...).

APRENDI que uma boa ideia  pode  ocorrer  a qualquer momento: conversando com alguém, comendo, caminhando, lendo (e, segundo Agatha Christie, lavando pratos).

APRENDI que uma boa ideia é realmente boa quando não nos abandona, quando nos persegue sem cessar.  O grande teste  para uma ideia é tentar se livrar dela. Se veio para ficar, se resiste ao sono, ao cansaço, ao cotidiano, é porque merece atenção.

APRENDI que  aeroportos  e  bares  são  grandes lugares para se escrever. O bar, por razões óbvias;  o  aeroporto,  porque  neles  a vida como que está em suspenso. Nada como uma existência provisória para despertar a inspiração literária.

APRENDI  que as  costas do talão de cheque é um bom lugar para anotar idéias (é por isso  que  escritor  tem  de  ganhar a grana suficiente para abrir uma conte bancária). O guardanapo do restaurante também serve, desde que seja de papel e não de pano. (...).

APRENDI  que  o  computador  é  um grande avanço no trabalho de escrever, mas tem um único inconveniente: elimina os originais, os riscos, os borrões, e portanto a história do texto, a qual - como toda história - pode nos ensinar muito.

APRENDI  que  a  mancha  gráfica  representada  pelo  texto  impresso diz muito sobre este mesmo texto.  As linhas não podem estar cheias de palavras; o espaço vazio é tão eloquente quanto o espaço preenchido pela escrita.  O texto precisa respirar, e quando respira, fica graficamente bonito. Um texto bonito é um texto bom.

APRENDI  a  rasgar  e  jogar  fora. Quando um texto não é bom, ele não é bom - ponto. Por causa  da  autocomiseração  (é  a  nossa  vida  que  está ali!)  temos a tentação de preservá-lo, esperando que, de forma misteriosa, melhore por si.  Ilusão. É preciso ter a coragem de se desfazer. A cesta de papel é uma grande amiga do escritor. (...)

APRENDI  a  não  ter pressa de publicar. Já se ouviu falar de muitos escritores batendo aflitos,  à porta de editores.  O que é mais raro, muito mais raro, são os leitores batendo à porta do escritor.

APRENDI  a  não  reler  meus livros. Um livro tem existência autônoma, boa e má. Não precisa do olhar de quem o escreveu para sobreviver.


APRENDI que, para um escritor, um livro é como um filho, mas que é preciso diferenciar entre filhos e livros.

APRENDI que terminar um livro se acompanha de uma sensação de vazio, mas que o vazio também faz parte da vida de quem escreve.

APRENDI que há uma diferença entre literatura e vida literária, entre literatura e política literária. Escrever é um vício solitário.

APRENDI a diferenciar entre o verdadeiro crítico e o falso crítico. O falso crítico não está falando do que leu. Está falando dos seus próprios problemas.

APRENDI que,  para  um  escritor, frio na barriga ou pelos do braço arrepiados são um bom sinal: um livro vem vindo aí.

 Escrever é reescrever

Nilson Souza (Zero Hora, 31-12-1990)


Qualquer pessoa pode redigir desde que tente para valer. O difícil é reler até nada mais ter para cortar ou acrescentar. A mensagem deve permanecer clara.

Primeiro, é preciso  saber que o universo reservou um lugar certo para cada palavra e só  ali  ela  faz  sentido. Como disse Voltaire, uma palavra posta fora do lugar estraga o pensamento mais bonito.

Mas ninguém nasce com esta clarividência. Um texto se constrói, às vezes lentamente, muitas vezes penosamente, raras vezes facilmente. Depende do esforço do construtor. E de sua persistência para refazer a obra quando ela desabar, seja por insuficiência de alicerce cultural, seja por causa de desvios temáticos ou de implosões gramaticais.

Qualquer pessoa consegue escrever, desde que tente para valer. Talento natural existe e ajuda, mas não é tudo.

Uma boa  maneira  de começar é selecionar o que se tem a dizer e para quem. A partir daí, da forma  mais  simples  e  direta  possível,  narra-se o fato. Com as palavras que vierem à cabeça.  Até que se esgotem. Depois, sim, começa a tarefa mais trabalhosa: reler uma,  duas,  tantas  vezes  quantas  forem  necessárias.  E  ir  retirando,  sem autocomiseração, tudo o que parecer duvidoso, exagerado, sem graça nem sentido. Se não sobrar nada, começa-se  de novo. Se sobrar muito, talvez seja melhor fazer outra leitura.

Quando  não  houver  mais  nada  para  acrescentar  ou  tirar,  e  a mensagem principal permanecer clara, o texto está pronto.

Parece simples, mas dói um bocado. Só que não tem outro jeito.

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