quarta-feira, 7 de maio de 2014

Alto da Bronze



(Atual Praça General Osório)

Quem subir a velha Rua Duque, partindo da antiga Praia do Arsenal, logo depois de passar a Escola Técnica Ernesto Dorneles, verá a sua direita um quadrado cercado. Pois bem, esse quadrado tem o nome de Praça General Osório em homenagem ao herói do Paraguai. Mas, o povo teima em continuar a chamá-lo Alto da Bronze.

E por que surgiu a denominação “Alto da Bronze”? Recorramos aos subsídios do “velho Coruja” nas suas “Antigualhas”, que afirma que, quem descesse a rua Duque ao atingir a Praça, “encontraria à direita uma meia dúzia de casas de porta e janela, em uma das quais morava Felizarda, mas que só era conhecida por não sei de que de bronze, (bunda, seios, vagina?), e que por decência só era denominada Bronze, nome que foi dado aquele lugar por ser ela a figura mais notável do bairro”. Quem seria essa estranha mulher, a “decência” impedia que se mencionasse algum tributo físico “notável” de que era possuidora? Os cronistas mencionam seu nome, afirmando que viera de São Borja e se estabelecera no local em meados do século XIX. Qual seria a força de disporia essa simples mulher a ponto de emprestar seu nome ao logradouro, quando à sua época era denominado Ladeira de São Jorge? Seria ela um tipo de china e daí a alcunha de “Bronze”. Numa população analfabeta a “Bronze” ganharia apreço e consideração pelo fato de ser uma espécie de “cartomante”, que vivia a fazer mandingas, “a engazopar com benzeduras e engrimanços as pobres mulheres que fazem comércio do corpo como a quase sua contemporânea, dona Flor, que morava em frente à cadeia”, nos informa Aquiles Porto Alegre. Quanto à sua reputação Sanhudo a denomina “Messalinazinha porto-alegrense”, afirmando que fazia um intenso comércio do seu corpo, “irresistível e insaciável”. Já Aquiles informa não saber se era virtuosa e segundo lhe constava, sua existência não era escandalosa. A verdade é que a casa da Bronze era um “terreiro” de batuque.

Seria essa simples mulher do povo que “derrotaria” o General Osório na questão da nomenclatura. O nome do glorioso cabo de guerra figura apenas na placa, pois os porto-alegrenses conhecem a praça, como “Alto da Bronze”. E com esse nome certamente ficará conhecida pelos séculos afora.

(Do livro “Crônicas das Ruas de Porto Alegre”, de Leandro Telles)

§ § §

Todos os fantasmas de Porto Alegre moram no Alto da Bronze, disse um dia o escritor Moacyr Scliar. Mas eles não se restringem aos limites da velha praça, entre as ruas Duque de Caxias, Fernando Machado e General Portinho.

O Alto da Bronze tem alma, tem luz. Alma suja de sangue e dor, muita dor e saudade. A Bronze ficou musical. E teve seus dândis. Mas não perdeu a singeleza infantil. Paulo Coelho e Plauto Azambuja a imortalizaram, como se ainda fosse necessário, em uma composição que falava de crianças, riso e desenganos:

Alto da Bronze


Alto da Bronze,
Cabeça quebrada,
Praça querida,
Sempre lembrada,
a praça onze
da molecada.
Praça sem banco,
do Rato Branco*
e do futebol.
Da garotada
endiabrada
das manhãs de sol.
És eterna lembrança
dos tempos felizes
em que eu era criança,
dos tempos em que
a vida era
da minha infância
a doce quimera.
Hoje eu pobre
e profano
me lembro de ti
dos meus desenganos,
Oh! meu Alto da Bronze
dos meus oito anos.”

(Do livro “A Noite dos Cabarés”, de Juremir Machado da Silva)

*Os antigos guardas-civis de Porto Alegre usavam a túnica de cor branca, daí que o povo os chamavam, pejorativamente, de Rato Branco.


P.S. O professor Leandro Telles, autor do livro “Crônicas das Ruas de Porto Alegre” vende (ou vendia, não o vejo mais) livros e revistas antigos no Brique da Redenção todos os domingos. Levo o livro citado acima para que ele o autografe, e pergunto no seu ouvido:

Professor Leandro, por favor, me esclareça uma dúvida deste livro. O que é que a Felizarda tinha de bronze?

E o professor responde, sem rodeios:

A b...!

Nilo da Silva Moraes

P.S. Já ouvi outros historiadores afirmarem que ela tinha o hímen duro como bronze. Também falar em c... de bronze...





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