quinta-feira, 15 de maio de 2014

Anedotário Machadiano




O sacristão da Lampadosa

A falta de documentos destinados a provar em definitivo ter sido Machado de Assis coroinha ou sacristão da igreja da Lampadosa, não seria fora de propósito recompor o que há na obra de nosso maior escritor, como sobrevivência do tempo em que ele andou “entre-santos”, na atmosfera das coisas eclesiásticas.

Muitas de suas páginas estão a dizer-nos, indiscutivelmente, que Machado de Assis, no começo da vida, se impregnou dessa atmosfera, a ponto de poder literariamente recriá-la em tom evocativo.

O conto “Entre Santos”, das Várias Histórias, chega a valer por testemunho. Bem assim certos lances do Dom Casmurro. E o conto da “Missa do Galo”. E, sobretudo, algumas das mais belas crônicas machadianas, como aquela em que fala do cantochão da igreja do Carmo, para nos dizer, numa onde de saudade: “Eu fui criado com sinos, com estes pobres sinos das nossas igrejas.”

A Francisco de Castro, grande amigo de Machado de Assis, não escapou o reparo dessa impregnação na obra do mestre. E, um dia, confiado na cordialidade que os unia como bons companheiros, perguntou ao escritor se, de fato, como já lhe tinham falado, ele havia sido sacristão na igreja da Lampadosa.

 Fui, sim – replicou o romancista.

E fechando-se na sua reserva habitual:

 Mas não repita isso a ninguém.

O amigo do Machadinho

Achava-se Machado de Assis em seu gabinete de trabalho, na Diretoria de Contabilidade do Ministério da Viação, quando o contínuo anunciou a presença de uma pessoa que desejava falar-lhe.

 Diga-lhe que no momento estou muito ocupado e que não posso recebê-la – ordenou o romancista.

Mas nesse momento a porta do gabinete era aberta pelo visitante, que logo se adiantou, rosto aberto e risonho, modos espalhados, o vozeirão cordial:

 Com licença, Machadinho.

E aproximando-se:

 Não se lembra de mim, Machadinho? Fui seu velho camarada, nos bons tempos em que você era sacristão da Lampadosa!

Machado de Assis, ar sombrio, retraiu-se ao abraço festivo que tentava envolvê-lo, ao passo que o outro, sempre a tratá-lo de Machadinho, prosseguiu no seu tom derramado.

Por fim, vendo-se livre do importuno, o romancista volveu à mesa de trabalho, ainda com expressão de aborrecimento e enfado. E baixando a cabeça, enquanto molhava a pena para tornar ao processo que ia informando, resmungou, irritado:

 Machadinho... Machadinho... Machadinho vá ele!

O parecer do postulante

Encontrava-se Machado no seu gabinete de trabalho na Secretaria da Indústria, quando ali chegou uma pessoa que lhe queria falar com muito empenho. O escritor atendeu-a, sem demora. Tratava-se de outro interessado na solução de um processo. Machado de Assis, após exame do assunto, declarou ao postulante que era inteiramente contrário ao que este pretendia.

 Reflita bem, Senhor Diretor – volveu o noutro, disposto a mudar o parecer de Machado de Assis.

E animado pelo silêncio do escritor, pôs-se a discorrer sobre o processo, alinhando razões e argumentos, com uma fluência de advogado.

A certa altura da explanação, Machado de Assis levantou-se da mesa e ofereceu-lhe a própria cadeira:

‒ Faça o favor, sente-se.

O homem sentou-se, intimamente convencido de que a cortesia do Diretor era meio caminho andado na modificação de seu juízo contrário ao caso. E ainda bem não se havia refestelado na cadeira, quando Machado de Assis, depois de molhar a pena no tinteiro, lhe ofereceu a caneta:

– Tenha bondade, Senhor Diretor, de lavrar o seu parecer.

O postulante, enfiado, ergueu-se da cadeira, compreendendo a ironia do escritor, e saiu dali apressadamente, sabendo que não devia voltar...

A mágoa de não ter filhos

Machado de Assis, no final das Memórias Póstumas de Brás Cubas, procurou consolar-se da mágoa de não ter tido filhos dizendo, pela pena de seu herói, que assim não passaria a outrem o legado da nossa miséria.

A verdade é que, não obstante a consolação dessas palavras, a mágoa permaneceu no espírito do romancista.

Estava ele, um dia, em companhia de José Veríssimo, quando ouviu de um amigo a participação do nascimento de seu nono filho.

 Nove – comentou Machado de Assis – é talvez demais.

E depois de uma pausa, com os olhos entrefechados:

 Porém nenhum é pior.

A impressionabilidade do escritor

Em companhia de Magalhães de Azeredo, entrou Machado de Assis numa farmácia.

E o farmacêutico:

 Há poucos momentos tive de socorrer uma pessoa que caiu com um ataque epilético.* O senhor não avalia como ainda estou me sentindo mal com a lembrança do corpo a contorcer-se na calçada, sem sentidos, a boca espumando.

E Machado de Assis, nervosíssimo:

– Por favor, cale-se, que eu também sou doente e estou sentindo que vou ter alguma coisa!

* Machado de Assis também era epilético.

Gosto literário

O Visconde de Taunay, sentado a um canto de redação da Revista Brasileira, lia interessadamente um livro, quando Machado de Assis, que acabara de chegar, se adiantou para cumprimentá-lo.

– Que está lendo? – perguntou ao mestre de Inocência o mestre das Memórias Póstumas, depois que lhe apertou a mão.

Taunay mostrou-lhe o livro.

E notando uma sombra de restrição no semblante do amigo:

 Não gosta? – perguntou-lhe.

 Não.

– Por quê?

E Machado de Assis:

 Não gosto de escritor que me diz tudo.

A reação do romancista

Raramente saindo de casa à noite, a não ser em companhia de Carolina, Machado de Assis, obrigado por um compromisso, teve de jantar, um dia, num dos restaurantes do centro da Cidade.

E ia-se servindo da sopa, que o garçom acabara de trazer-lhe, quando notou que, à tona da gordura, boiava um fio de cabelo louro.

 Ouça aqui – chamou o romancista.

E assim que o garçom voltou:

 Olhe – disse ele, mostrando o prato – eu gosto de cabelo louro e de sopa, mas separado.

A última recusa

A vida de Machado de Assis era já uma tênue chama que o mais leve sopro podia apagar. Em seu redor, os velhos amigos. Lá fora, o sussurro de vozes pesarosas. Nenhuma esperança de saúde para o velho escritor.

E um dos amigos, sentindo que se aproximava a hora final, propôs ao mestre, numa pergunta piedosa:

A vida de Machado de Assis era já uma tênue chama que o mais leve sopro podia apagar. Em seu redor, os velhos amigos. Lá fora, o sussurro de vozes pesarosas. Nenhuma esperança de saúde para o velho escritor.

 Posso mandar chamar um sacerdote?

Machado moveu a cabeça numa negativa. E com uma voz distante, já quase extinta, marcando a coerência do homem com o seu pensamento:

 Não quero... Não creio... Seria uma hipocrisia...


Do livro “Pequeno Anedotário da Academia Brasileira”, 
de Josué Montello.


A vida é boa!”

(Últimas palavras, sussurradas por Machado de Assis, patrono dos escritores brasileiros, em 29.09.1908, ao crítico José Veríssimo, que acompanhou sua agonia final).



Machado de Assis por Angelo Dagostini



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