quarta-feira, 7 de maio de 2014

Contos do livro "Cavalo Verde"


Contrabando em Aceguá


(Seu posto era ali, na fronteira com a Banda Oriental Del Uruguay)


Até parece que seu Goya tinha posto goma arábica nas almofadas. Não saía do cargo nem puxado por cinco juntas de bois.
A impressão que se tinha era de que, se o homem nascesse de novo, já nos cueiros seria fiscal aduaneiro.
Viesse chuva ou sol aberto, seu posto era ali, na fronteira com a Banda Oriental del Uruguay.
Com seus óculos tão espessos que pareciam fundo de garrafa, lá estava ele, com sua autoridade que, sem ser insolente, impunha respeito.
Mas acontece que, na dança dos câmbios, o contrabando andava “livre, leve e solto”.
Numa noite em que a lua fora visitar seus parentes em outras cercanias e não havia, nos céus, uma única estrela para alumiar os passos de São Genaro, protetor dos contrabandistas, vinha pela carreteira de Melo uma caminhonete Chevrolet da mais alta suspeição.
Ao se aproximar da linha divisória, seu Goya fez valsear sua lanterninha, que mais parecia um bando de vaga-lumes em saracoteios.
Três uruguaios levavam, no banco traseiro, uma ovelha de contrabando.
Ao sentirem o perigo, Tertuliano, Paquito e Caballero, mais do que depressa, cobriram a ovelha com o poncho lanudo e enfiaram os óculos no ovino passageiro.
Seu Goya alumiou o interior da condução.
- Lo que se pasa, paisanos?
- Nosotros estamos llevando nuestra tia Mercedes para el hospital de Bagé. Es cosa urgente, señor.
- Pasen, muchachos, pasen – disse o velho fiscal.
Ao voltar para a cabine onde Esteban se espreguiçava ante uma Norteña vazia, comentou Seu Goya:
- A la pucha, que cara de oveja tiene esta tal Doña Mercedita!


Valente, pero no mucho




Ah, se tivesse a valentia que propalava, valeria por um batalhão. Na rua era cervo, em casa, leão.
Abria o berro e o cachorro se escondia embaixo do fogão.
Dona Everalda andava sempre de cabeça baixa, pisando em ovos.
As gurias, então, nem se fala. Só levantavam os olhos nos ofícios de reza, ante a imagem da Virgem Santíssima.
Quando o homem saía de casa, a família timidamente recomendava: se o senhor espirrar, saúde!
Mas naquela tarde, esse tal de Ambrósio Monte botou a questão a limpo. Quem pode, pode. Quem não pode, obedece. 
Lá na rua uma gritaria, um pega-pega.
Dona Everalda rompe as fraldas do silêncio e corre pela casa gritando:
- Valha-me Deus, estão surrando o baixinho, cruz-credo, Virgem Maria!
- Não vai ser assim – disse o Ambrósio. E arremangou a camisa, inflou o peito e foi para o combate.
A filharada e os empregados formavam uma torcida atrás das persianas de guilhotina.
Não demorou muito, já estava o guerreiro de volta.
Esbaforido, exclamava:
- Não foi fácil demolir aquele baixinho metido a valente. Onde é que se viu se meter com gente grande! Levou o que merecia. Agora ele sabe o valor dos homens de respeito. E que sirva de exemplo para os desta casa. Valentia não se compra em farmácia – resmungava triunfante Seu Ambrósio, dando uns passos de gavião entre a sala e o quarto das moças.



(Do livro “O Cavalo Verde”, de Luiz Coronel)



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