segunda-feira, 5 de maio de 2014

Grande Sertão: Veredas

Guimarães Rosa


Guimarães Rosa por Loredano

Esse romance é um monólogo do começo ao fim de Riobaldo, outrora bandido de fama e agora vingador de Joca Ramiro. No presente é um pacato fazendeiro e conta a um suposto interlocutor (técnica inédita) suas aventuras da juventude, as lutas que teve, seus temores e suas dúvidas... Os acontecimentos narrados seguem o vaivém da lembrança de Riobaldo que, ansiosamente, busca compreender o que conta, indagando-se continuamente sobre os destinos da existência humana, fazendo do sertão um mundo de mistérios e desencontros.

O caso seguinte é uma subestória humorística extraída do grande romance. Seo Ornelas é um rico fazendeiro, velho, ex-jagunço e cheio de peripécias. Inesperadamente é visitado por Riobaldo e seu bando.

Perceba o estilo linguístico de Guimarães Rosa.

ß

(...) Seo Ornelas relatou à gente diversos casos. E o que em mente guardei, por esquipático mesmo no simples, foi o seguinte, conforme vou reproduzir para o senhor.

O qual se deu da parte da banda de fora da cidade da Januária.

Seo Ornelas, nessa ocasião, tinha amizade com o delegado Dr. Hilário, rapaz instruído social, de muita civilidade, mas variado em sabedoria de inventiva, e capaz duma conversação tão singela, que era uma simpatia com ele se tratar – “Me ensinou um meio-mil de coisas... A coragem dele era muito gentil e preguiçosa... Sempre só depois do final acontecido era que a gente reconhecia como ele tinha sido homem no acontecer...”

Ao que, numa tarde, seo Ornelas – segundo seu contar – proseava nas estradas da cidade, em roda com Dr. Hilário, mais outros dois ou três senhores, e o soldado ordenança, que à paisana estava. De repente, veio vindo um homem, viajor. Um capiau a pé, sem assinalamento nenhum, e que tinha um pau comprido num ombro: com um saco quase vazio pendurado da ponta do pau. – “... Semelhasse que esse homem devia estar chegando da Queimada Grande, ou da Sambaíba. Nele não se via fama de crime nem vontade de proezas. Sendo que mesmo a miseriazinha dele era trivial no bem-composta...” Seo Ornelas departia pouco em descrições: - “... Aí, pois, apareceu aquele homenzém, com o saco mal-cheio estabelecido na ponta do pau, do ombro, e se aproximou para os da roda, suplicou informação: - O qual é que é, aqui, mó que pergunte, por osséquio, o senhor doutor delegado? – ele extorquiu. Mas, antes que um outro desse resposta, o Dr. Hilário mesmo indicou um Aduarte Antoniano, que estava lá – sujeito mau, agarrado na ganância e falado de ser muito traiçoeiro. – “O doutor é este, amigo...” – o Dr. Hilário, para se rir, falsificou. Apre, ei – e nisso já o homem, com insensata rapidez desempecilhou o pau do saco, e desceu o dito na cabeça do Aduarte Antoniano – que nem fizesse questão de aleijar ou matar... A trapalhada: o homenzinho logo sojigado preso, e o Aduarte Antoniano socorrido, com o melor e sangue num quebrado na cabeça, mas sem gravidade maior. Ante o que, o Dr. Hilário, apreciador dos exemplos, só me disse: – Pouco se vive, e muito se vê... Reperguntei qual era o mote. – Um outro pode ser a gente; mas a gente não pode ser um outro, nem convém... – o Dr. Hilário completou. Acho que esta foi uma das passagens mais instrutivas e divertida que em até hoje eu presenciei...”

João Guimarães Rosa: “Grande Sertão: Veredas”,
Livraria José Olympio, p.347-8.


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