quinta-feira, 8 de maio de 2014

Histórias do Doutor Getúlio Vargas-1




Þ Tenório Cavalcanti, udenista e adversário político de Vargas, foi ao catete numa comissão de deputados. Andava nas manchetes dos jornais por causa de suas estripulias em Caxias, na base da “Loudinha”(metralhadora) e da capa preta. Getúlio o cumprimentou, olhou bem para o volume do revólver embaixo do braço esquerdo, sob o paletó:
- Deputado, o senhor está armado?
Tenório ficou vermelho, mas não perdeu a bote:
- Sim, presidente, armado de admiração por Vossa Excelência.

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Þ Getúlio Vargas era presidente da República, em 43, foi a São Paulo, participou das comemorações na 2.ª Região Militar, comandada pelo general Mascarenhas de Morais. Houve um campeonato de “tiro aos pombos”. Participava o campeão nacional, um major da 2.ª Região, que nunca errava uma: o pombo voou ele derrubava. Naquele dia o major estava de azar. Vou o primeiro pombo, “paaaa”. Errou. Vou o segundo, “paaaa”. Errou. Voou o terceiro, “paaaa”. Errou de novo. O major foi ficando encabulado, vermelho, aflito, desistiu.
Getúlio tirou o charuto da boca, consolou o major:
- Major, não se incomode. O senhor atira bem. Os pombos é que voam mal.

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Þ Getúlio Vargas nomeou um amigo para a alfândega e avisou:
- Quando quiserem corromper você, me avise.
Meses depois, recebe uma carta:
“Presidente Getúlio Vargas, por favor me demita urgente. Os homens estão chegando no meu preço”.

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Þ Getúlio Vargas tinha oito anos, já estava lá em São Borja semeando espertezas. Num dia de conversa fiada, o pai quer saber o que ele já estava pensando da vida:
- O que você quer ser quando crescer?
- Militar.
- Por que militar? Meu filho, você sabe que o militar se arrisca muito? Você sabe que o militar está sempre exposto a ser morto pelo inimigo?
- Então, eu quero ser o inimigo.

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Þ Em 45, um dos militares mais ativo na conspiração para a derrubada de Getúlio foi o general Newton Cavalcanti. Em 50, Vargas vence as eleições e o general Newton, como chefe da Casa Militar do presidente Dutra, vai lá acertar os detalhes da posse. Getúlio está sentado na cadeira de balanço, pernas estiradas, os olhos semicerrados, fumando seu charuto, entra o general Newton, ele nem abre os olhos sonolentos:
- Veio me prender, general?

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Þ Padre Olímpio de Melo, nome de rua larga em São Cristóvão, duas vezes prefeito da cidade (nomeado e eleito), era o decano dos políticos cariocas. Estava no Catete, conversando com Getúlio, foi tirar o lenço do bolso da batina, caiu um pequeno punhal de prata. Ficou encabulado, Getúlio sorriu:
- Reverendo, seu rosário caiu.


Þ Em 1949, em São Borja:
- O que é que o senhor pensa do general Góis Monteiro?
- Tem uma memória extraordinária. Só esquece os favores recebidos.
- E o que o senhor está achando da campanha contra a sua volta?
- Meus inimigos estão de ovo virado. Depois que eu for eleito, lá estarão todos eles, sorridentes, virando tapete para que eu passe por cima.


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Þ Estava no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, entra Barreto Pinto.
- Barreto, estás engordando muito.
- Quanto mais trabalho, mais engordo, presidente.
- Nada disso. É o cartório que te dei, Barreto. Cartório engorda muito.


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Þ Osvaldo Aranha, em 53, foi convidado por Getúlio a assumir o Ministério da Fazenda. Os jornais falavam em “posto de sacrifício”, “salvar o regime”. Aranha foi lá no Catete:
- Getúlio, a situação é calamitosa. Não vejo possibilidade de equilibrar a receita e a despesa.
- Osvaldo, e se nós arrecadássemos a despesa e gastássemos a receita?


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Þ Dona Alzira Vargas do Amaral Peixoto era secretária do pai. Depois do almoço, no Palácio, Getúlio descansava, ele lembrou:
- Pai, tu tens que ir hoje a uma solenidade.
- Por que tu tens, minha filha? Eu não tenho nada. E vou se quiser. Eu sou o presidente.
E não foi.

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Þ Getúlio tinha uma admiração pela poetisa Rosalina Coelho Lisboa, mulher de um dos diretores da Cia. Sul América de seguros. Um dia, conversava com Agrippino Grieco, o crítico feroz:
- Tu não achas, Agrippino, que a Rosalina é maior poetisa do Brasil e da América do sul?
- Da América do sul não direi, presidente, mas com toda a certeza ela é a maior da Sul América.

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Þ Osvaldo Aranha foi visitar Getúlio no Palácio Guanabara. Alzirinha mostrou-lhe a cadeira do pai vazia, porque Getúlio passeava pelo salão:
- Sente, doutor Osvaldo.
- Não, Alzira – disse Getúlio lá do fundo. – Nessa cadeira, não. Ela é minha e muito macia. O Osvaldo pode sentar se e tomar gosto. Com o poder não se brinca.
Osvaldo Aranha sentou-se em outra cadeira. Getúlio ficou mais dez anos no poder. E na cadeira macia.

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Þ O repórter vai ao Catete entrevistar Getúlio:
- Presidente, para vencer na política o que é preciso?
- Muita coisa. Boa memória, por exemplo. Em política é como água no feijão. O que não presta flutua. O que é bom repousa no fundo.


(Do livro “Folclore Político”, de Sebastião Nery – Geração Editorial)


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