sexta-feira, 16 de maio de 2014

Maria Degolada – a realidade


Capa do Almanaque
Portoalegrense de 1899
Nesta edição: Crime hediondo em Porto Alegre
(Seria a foto da vítima?)


Ao apagar das luzes do século XIX, em novembro de 1899, a então pacata e aprazível Porto Alegre, capital do estado mais meridional do Brasil, com uma população estimada em 70.000 habitantes, voltava sua atenção para as comemorações que estavam sendo programadas para festejar a entrada de um novo século.

Entretanto, a nossa Porto Alegre foi abalada por um tenebroso crime nada relacionado com o fim do mundo, mas infelizmente comum nas crônicas de todos os agrupamentos humanos: a tragédia que tirou a vida de uma infeliz mulher do povo e que ficou conhecida na história como o Crime da Maria Degolada. Esse fato teve tal repercussão que passou a batizar uma vila popular como o nome de Maria Degolada, o local onde aconteceu ficou conhecido como o Morro da Maria Degolada, denominações essas que tendem a desaparecer, pois que o hediondo significado do verbete degolada está sendo substituído por Conceição, mais precisamente Maria da Conceição, adotado oficialmente. Esse o drama maior do fim do século em nossa sorridente capital.

Quase nos estertores de 1899 precisamente no dia 12 de novembro, uma mulher foi brutalmente assassinada por seu amante. Graças à iniciativa do Arquivo Público do Estado, conservador do processo alusivo ao fato, foi possível restaurar a verdade.

Os personagens

A vítima chamava-se Maria Francelina Trenes, de nacionalidade alemã. Contava com 21 anos de idade ao ser assassinada. Está sepultada no jazigo n° 741 do Campo Santo da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Era solteira; no processo aparece como amásia do assassino.

O criminoso, Bruno Soares Bicudo, 29 anos, servia na Brigada Militar com o nome de Brum e não Bruno. Natural de Uruguaiana, solteiro e analfabeto.

O local

O local onde se desenrolou o drama, que ficou conhecido como Crime da Maria Degolada, ou da Maria do Golpe, situa-se na fralda leste do Morro do Hospício, no arraial do Partenon. Constitui hoje a chamada Vila Popular de Maria da Conceição, mas que o vulgo continua a batizar de Maria Degolada.

O crime

No dia 12 de novembro de 1899, quatro soldados do 1° Regimento de Cavalaria da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, encontrando-se de folga e por ser um domingo, em plena estação primaveril, acompanhados de outras tantas mulheres, resolveram aproveitar o dia para os “prazeres de um pic-nic”. Escolheram para local o Morro do Hospício nas proximidades da Chácara das Bananeiras, onde serviam.

Após terem saboreado um churrasco, conforme haviam programado, quando os relógios marcavam mais ou menos às quinze horas, o soldado de nome Bruno Soares Bicudo, por motivos de ciúmes, após haver discutido com sua acompanhante, enraivecido e pretextando mais tarde uma possível agressão da vítima, subjugou-a, degolando-a.

As testemunhas

Uma das testemunhas, Francisco Alves Nunes, presente no local e hora do crime, prestou um longo depoimento, do qual destacamos: “que a vitima entendeu dirigir chufas (gracejos) ao denunciado, que era seu amásio, dizendo-lhe que tinha outro homem com quem pernoitar, suscitando-se, por isso, uma discussão entre ambos, a qual, tornando-se calorosa, deu lugar a que o depoente e seus companheiros intervissem, chegando mesmo a vítima lançar mão do porrete e de um pedaço de ferro para com ele agredir o denunciado, que julgando a contenda terminada trataram os companheiros de tomar café, ficando o denunciado e a vítima a sós, um pouco retirado deles; que, pronto o café, voltando o depoente a chamar o denunciado para bebê-lo, notou que ele havia assassinado a vítima, usando de uma faca, pelo que o depoente e com os demais companheiros promoveram a prisão do denunciado.”

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(Do livro “Maria Degolada – mito ou realidade?”)

Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – Edições EST


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