sábado, 31 de maio de 2014

Menino do Rio, vida, paixão e morte



Por Valério Meinel

No começo dos anos 70, com pouco mais de 15 anos de idade, José Artur Machado, o Petit*, era o símbolo da geração de jovens bronzeados, surfistas da praia de Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, que usavam parafina para tornar as pranchas menos escorregadias e dourar os cabelos compridos. Coisas da moda. Livre, solto, sem outro compromisso com a vida senão viver e viver intensamente. Petit foi imortalizado pelo cantor Caetano Veloso, que se inspirou em sua imagem e, em 1979, compôs Menino do Rio, clássico da música popular brasileira na voz de Baby Consuelo.

Mas, na madrugada de 29 de agosto de 1987, na garupa da moto de um amigo ocasional, sem destino, rasgando uma dolorosa noite interior à procura de si mesmo, encontro que só se tornara possível com o brilho do pó, Petit sofreu um acidente. A violenta pancada da cabeça contra o asfalto o deixou em coma por 40 dias. Sobreviveu, mas com o lado direito do corpo, rosto e boca paralisados. Sequelas que não superou. Uma pessoa comum talvez conseguisse driblar o drama, mas não o “talentoso Petit”, como a ele se referem os amigos. Nessas condições, a vida se tornara insuportável para o Petit que as mulheres - todas as mulheres - chamavam de mel. Mais que um homem de pele dourada, loiro, 1,80 metros e físico forte, ele era uma criança indefesa, os olhos perigosamente verdes.

Quase dois anos depois, na tarde de 7 de março de 1989, aos 32 anos, Petit, que não conseguira se tornar adulto, eterno menino do Rio, matou-se. Trancou-se do mundo e bateu a porta: enforcou-se com a faixa do quimono de jiu-jitsu, o nó preso pelo lado de fora do alto da porta fechada do apartamento. Petit foi encontrado como na música de Caetano: calção, corpo aberto no espaço.

Menino do Rio

Caetano Veloso

Menino do Rio,
Calor que provoca arrepio,
Dragão tatuado no braço,
Calção corpo aberto no espaço,
Coração.
De eterno flerte.
Adoro ver-te!
Menino vadio,
Tensão flutuante do Rio.
Eu canto pra Deus proteger-te...

(bis)

O Hawaí seja aqui
Tudo o que sonhares,
Todos os lugares,
As ondas dos mares,
Pois quando eu te vejo
Eu desejo o teu desejo...





Rico de Souza e Petit, este com o dragão tatuado no braço...

Petit, o fim de uma ilusão

Na tarde de 7 de março de 1989, Tide estava com sua mulher, Maria Teresa, em casa, um apartamento na rua Gomes Carneiro, no Arpoador, quando o telefone tocou. "Tide", perguntou uma voz de homem, que em seguida se identificou: “É o Valtinho. Por que não vem com a Maria tomar uma vodka aqui em casa?” ”Agora?” “Por quê? Tá ocupado?”, insistiu Valtinho. “Tudo bem. Estamos indo.” Tomar uma vodka na casa do Petit e do irmão Valtinho era programa antigo. Tide foi com Maria. O hábito era subir pelo elevador de serviço, porque ele se abria em frente à porta da cozinha do apartamento dos amigos. Mas naquela tarde, Tide não sabe dizer o motivo, subiram pelo elevador social. Quando desembarcaram no andar, em frente à entrada social do apartamento, repararam que no alto da porta fechada havia um grande nó feito com tecido grosso, que na hora não identificaram. “Coisa esquisita...”, comentou Maria. Tide não deu importância: “Deve ser brincadeira do Felipe”, respondeu, referindo-se ao garoto de 10 anos, filho do Valtinho. “Vai ver amarrou um alvo atrás da porta para lançar dardos.” Não voltaram ao assunto e entraram no apartamento pela porta ao lado, a porta da cozinha, sempre aberta. Encontraram Valtinho e seu Machado. Dona Lola havia saído com o neto, Felipe, para pequenas compras. Trocaram algumas palavras na cozinha e Tide perguntou: “Cadê a vodka?” “Tá no bar, vou pegar”, respondeu Valtinho, saindo pela porta da cozinha, que levava para o interior do apartamento. O bar ficava na sala. E de lá veio um grito medonho e palavras de desespero. “Não! Não! Não! Pelo amor de Deus!” Tide, Maria e seu Machado correram à sala. Petit estava morto. Suicidou-se por enforcamento. Deu um grosso nó na faixa do quimono de jiu-jitsu, jogou-o por cima da porta da entrada social e prendeu-o, fechando a porta. Amarrou a outra ponta em volta do pescoço e pôs fim ao sofrimento de viver. Valtinho e o pai desamarraram o nó e fizeram descer o corpo. Tentaram a respiração boca a boca, mas ele já estava morto. Seu Machado quis se jogar pela janela e foi seguro por Tide. Nesse momento, chegaram dona Lola e o neto Felipe, que Maria tirou rapidamente da sala. Alguém telefonou para o pronto-socorro. Tide e a mulher desceram com Felipe. Chegou a ambulância e o médico apenas atestou o óbito. Vieram a polícia e o rabecão. Parado com Teresa e Felipe na esquina, Tide olhou em torno e não reconheceu as ruas, a praça. Aquele lugar não podia ser Ipanema.

* * * * * 

P.S. Em qualquer trabalho de pesquisa, basta um erro, uma imprecisão na última linha, para que o leitor duvide da exatidão de tudo que leu antes.

"Se tiver críticas, diga a mim; se tiver elogios, diga a todos."


Petit e amigos surfistas

A foto acima está no Aquário do Rio de Janeiro.



18 comentários:

  1. Impressionante. Não conhecia essa historia. Sempre amei a musica " menino do Rio", mas ela pra mim tinha uma conotaçao de curtiçao. Agora sei o real significado da letra.
    Obrigada pir compartilhar conosco.

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    1. Eu vivi intensamente esses áureos tempos dos anos 80, a praia era um lugar democrático, onde todos eram amigos de todos.
      Conheci Petit,era lindíssimo e não era novidade pra ngn, q Caetano, ficou encantado p ele, como todas as meninas e meninos, e então Cae,imortalizou a música "Menino do rio" pra Petit.
      Não aguentou o sofrimento de não ++ poder ser aquele lindo príncipe..... Grande época, grandes perdas!!

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  2. Impressionante. Obrigado por nos contar a história dele.

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  3. Que fim trágico! Eu não conhecia todos os detalhes, principalmente os filhos que deixou. Triste. A beleza, a irresponsabilidade e o descaso após o acidente. O que o impediu de ser um homem, foi a beleza, o vício... Tudo acabou... O mundo é cruel.

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  4. Olá, Boa tarde,

    Estou trabalhando em um documentário sobre o Marcos Archer, direção de Marcos Prado, produtor de Tropa de Elite 1 e 2. Em determinado momento o Petit é citado. Por favor, estou procurando a fonte da segunda foto que foi postada, logo abaixo da letra da música. Você saberia me informar quem possui os direitos dessa foto?

    Muito Obrigado

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  5. Olá, Nilo,

    Muito Obrigado pela ajuda.
    Encontrei a reportagem do O Globo.
    Além dessa matéria do O Globo, você teria mais alguma outra indicação para eu ir atrás?

    Muito Obrigado.
    Abraço.

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  6. Estudei com a prima dele Renata que morava em Botafogo estudava na antiga escola de comunicações ETEC, ela me contou essa história.

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  7. O rapaz da foto com o Petit é o Rico de Souza....

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  8. Na epoca do acontecido,lembro-me eu que ouvi a noticia no progama do também finado Aroudo de andrade. Mt triste

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  9. Não conhecia a história do eterno Menino do Rio.Parabéns pela matéria.Um abraço.

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  10. Acho que a mídia "distorce", pois fez-se acredita que o "Menino do Rio", de Caetano Veloso, era o Pêpe, da Barra da Tijuca, que também morreu.

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    1. Pq era uma época lúdica, todos juntos e misturados, e as vezes existiam dúvidas quem era o muso, ou musa....Mas essa com toda a certeza do mundo Caetano fz pra Petit, ficou encantado com a beleza dele. Realmente lindíssimo!!

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  11. Mae da fer,,,,os anos dourados do Brasi sem duvida anos 80 nunca mais veremos tanta magia real,,,Ele era lindo de fato,,, anonimo

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  12. Desculpem, É. BRASILLL,,,MAS O MENINO DO RIO,,,,,FOI UM SONHO LINDO,,,,ELE ,ERA LINDO,,,,DE FATO,,,,OBRIGADO POR COMPARTILHAR,,,AHHHHH,,,, ANOS 80,,,,,

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  13. Fiquei muito emocionada com a história do lindo e mítico Petit... Menino do Rio... Muito triste, mas compreendo sua atitude e não julgo jamais. Quem conhece a felicidade jamais se conformará com a tristeza.
    Descanse em paz "Menino do Rio"... Tudo o que sonhares, todos os lugares.

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  14. Sempre amei essa música! Não conhecia a história, triste, sem final feliz. Que hoje ele esteja em paz.

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  15. De portugal 30 anos depois um comentário nostálgico :
    Está história só poderia ter sido escrita no Rio de Janeiro cidade maravilhosa gente maravilhosa!

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