quarta-feira, 14 de maio de 2014

O Clube dos Caçadores

(O maior e melhor cabaré que já existiu em Porto Alegre)


O Clube dos Caçadores na rua Andrade Neves

Quando se conta o que foi o Cabaré dos Caçadores, a grande maioria afirma ser tudo mania de grandeza de gaúcho, que nada daquilo realmente existiu, que não passou de mais uma lenda da vida noturna de Porto Alegre. Mas, tendo vivido durante seis anos de minha vida, quase todas as estilo, atrações, profissionalismo dos empregados, foi um dos melhores clubes noturnos que noites, no Caçadores, testemunho com firma reconhecida de velho boêmio que, como categoria, conheci em todo o mundo.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Luiz Alves de Castro abria em Porto Alegre, mais precisamente na Rua Nova, depois Andrade Neves, um clube fechado com o nome de O Fomento. Decoração em estilo inglês, salas de jogo e maravilhoso serviço de bar e restaurante, era frequentado exclusivamente por sócios selecionados entre os poderosos e gastadores de então. Lá estavam Nico Chaves, Oswaldo Aranha, Urbano Garcia, Flores da Cunha, Victor Bastian, Maurício Cardoso e muitos outros.

Fechado O Fomento, foi aberto em 1921, no mesmo local, o Clube dos Caçadores, também de propriedade de Luiz Alves de Castro, já conhecido como Capitão Lulu, tendo como sócio o português José Carvalho.

(...)

Os salões do Caçadores eram todos revestidos de madeira de lei, de seus tetos pendiam lustres de cristal, suas mesas cobriam-se com toalhas que combinavam com o estofamento das cadeiras e das cortinas. Tudo formando um conjunto do maior bom gosto. A sala do cabaré sugeria um anfiteatro, tendo ao centro uma pista onde se apresentavam os números de variedades. Uma passagem em forma de túnel ligava o cabaré às salas de jogo. Em volta da sala central foi construída uma galeria onde ficavam os luxuosos reservados, para os que faziam questão de ir ao Caçadores, mas que lá não podiam ser vistos.

O Caçadores tinha a melhor cozinha e o mais perfeito serviço da cidade: copos de bacará, talheres de prata, Veuve Clicquot custando cinquenta mil-réis; filé com fritas cinco mil e a cerveja Oriente, três mil-réis. Não existia couvert, invenção minha, muito mais tarde, no Rio de Janeiro. Abria às nove da noite e funcionava até quatro da manhã. As variedades começavam à meia-noite.

As mesas e grupos dividiam-se um pouco de acordo com a renda per capita dos frequentadores, O grupo dos grandes, com seus brilhantes nos dedos e reluzentes pegadores de gravata: Maristany e Lulu Crevelaro, os “reis da banha”, Carlos Difini, Hugo Gertum, Victor Bastian e José Herculano Machado (pai do autor deste texto), que nunca mais colocou os pés no Caçadores depois que me encontrou lá pela primeira vez. O grupo que reunia a preferência das artistas, pois, além do champagne, fazia também farta distribuição de fichas, era formado por Pedrinho Garcia, Gabriel Pedro Moacyr, Manequinho Martins, Antônio Chaves Bracellos, Juca Chaves Barcellos, Ênio Terra Lopes e Sebastião Leão. Breno Caldas, Paixão, Ângelo Pilla, Souza Gomes e o Schneider formavam o grupo dos simpáticos bem comportados.

Mas a mesa que se divertia com menor despesa era a nossa. Sabedor que a turma do Machadinho não era de muito gastar, maître Adelino nos colocava numa mesa ao lado da orquestra, que ninguém queria devido ao barulho reinante, e lá passávamos a noite com numa garrafa de Oriente a ser dividida entre Pires do Rio, Agnelo Martins, Joaquim Macedo, João Pinto, José Guiloso, José Azevedo, Mário Alípio Cezar, José Leal, eu e os sempre retardatários Rochinha, Sans Chapeau – o primeiro brasileiro a abolir o uso do chapéu – e Baiano.

Pelas variedades do Caçadores passaram artistas internacionais. Aplaudimos Lolita Benavente, Theda Diamante, Maria Montecinos, Las Hermanas Palumbo, Rosita Paraguay, Triana La Negra, Pepita Villalba e Lulu Provende. Muitas formaram no meu elenco particular. Foram amores a prazo fixo, porque todas as atrações do Caçadores vinham contratadas por temporada. Quando esta terminava, mudavam as atrações e, logicamente, as conquistas recomeçavam.

Era grande a influência exercida pela Argentina e apesar de dançarmos o charleston, o Black bottom e até o paso doble, em homenagem às espanholas das variedades, o que deixava repleta a pista do Caçadores eram “Noche de Reyes”, “Adiós Muchachos”, “Garufa”, “Sentimiento Gaucho” e “Mi Buenos Aires Querido”.

Nas mesas de bacará e roleta os crupiês chamavam os jogadores pelos nomes. Formávamos uma grande família: “Dr. João Carlos Machado, vai bancar? General, pode tirar. Carta ao ponto! Sr. Machadinho. Façam o jogo! No ponto e na banca. Feito! Caixa dos empregados, obrigado, Sr Schneider!”

As mesas ficavam rodeadas pelos tradicionais “perus”. Certa vez, um deles, na empolgação do jogo, se aproximou tanto do Flores da Cunha que deixou cair-lhe em cima a cinza do seu cigarro. Esperávamos alguma reação do general, mas simplesmente chamou um dos groons e pediu-lhe um guarda-chuva, que ficou aberto sobre a sua cabeça durante o resto da noite! Insólita cena – foi a primeira vez que alguém jogou usando um guarda-chuva dentro de um cassino. Coisas de Porto Alegre!


Rua Andrade Neves, neste prédio de dois andares,
 funcionou o Clube dos Caçadores,


Do livro “Memórias sem Maquiagem”, de Carlos Machado,
Conhecido como “Machadinho de Porto Alegre,
Carlos Machado, “Machado de La Mist”,
Machado, “El Rey de La Noche” e “O Rei da Noite”.


José Carlos Penafiel Machado

16/3/1908 Porto Alegre, RS
   5/1/1992 Rio de Janeiro, RJ

O que ficou do Beco do Mijo

Inaugurado em 1926, o prédio de seis andares, no local do Beco, é hoje o Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo. E, apesar do que conta Reverbel, acabou derrubado pela tradição e a família gaúchas: apelidado de Palácio das Lágrimas pelos mais conservadores (que choravam de desespero – desejo? – com tanto laissez-faire), acabou fechado. Seus donos se mandaram pro Rio e, com o know-how adquirido, fundaram nada menos que o Cassino da Urca.






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