domingo, 11 de maio de 2014

O crime da Rua da Praia



Rua da Praia de 1911, a loja do crime à direita.

O dia em que Porto Alegre perdeu a sua inocência.

A tragédia rocambolesca desenrolada anteontem, à rua dos Andradas, teve, ontem, pela manhã, na várzea de Gravataí, o seu capitulo final. Foi um epílogo de sangue, emocionante e cheio de lances trágicos, como fora o crime hediondo perpetrado pelos quatro bandidos. Para que o desfecho fosse um verdadeiro final de tragédia, nada faltou. Os bandidos, fechados num círculo de ferro, são varados a balas, e, depois, os cadáveres transportados para a Chefatura de Policia acompanhados de extenso préstito, composto de todas as autoridades civis e militares que tomaram parte na captura dos criminosos, de grande número de forças que operaram em Gravataí e de populares. Logo que se espalhou a notícia da morte dos ladrões e assassinos, uma multidão encheu a rua dos Andradas. No número de mortos figura Alexander Grauberger, de 23 anos de idade. Natural da Rússia, ali propagava, aos 20 anos incompletos, o socialismo anárquico.

(Correio do Povo de 7 de setembro de 1911)

Crime da Rua dos Andradas

Morte de Alcides Brum - A tragédia da Rua dos Andradas teve ontem o seu desfecho com a morte do Sr. Alcides Brum, a vítima da crueldade assassina dos quatro ladrões desalmados.

O roubo - Na sala da 3ª delegacia, procedeu-se, ontem, a verificação precisa do dinheiro e das joias que se achavam em poder dos ladrões e foram apreendidos pelo Dr. Thompson Flores. O arrolamento consta do seguinte: 100 liras papel; 32 moedas de cobre, todas antigas; 23 pesos, papel uruguaio; diversas moedas de ouro; 738 pesos, papel argentino; 160 libras esterlinas; diversas moedas de prata; 9 relógios de ouro, 1 de prata; 1 de níquel; 1 corrente de ouro; 1 pingente de brilhante; 1 corrente de metal. O dinheiro e as joias foram recolhidos ao cofre da Chefatura de Polícia e deverão ser hoje devolvidos ao Sr. Virgílio de Albuquerque, proprietário da casa de câmbio assaltada.

(Correio do Povo de 8 de setembro de 1911)

Efetuaram-se ontem, pela manhã, as cerimônias de encomendação e sepultamento do malogrado jovem Alcides Brum, vítima da ferocidade dos quatro desalmados que assaltaram a casa de câmbios do Sr. Virgilio Albuquerque, à Rua dos Andradas, n° 210. Às 9 horas da manhã, saiu o féretro da casa mortuária, à rua coronel Fernando Machado n° 139, para a Catedral, onde se realizou a encomendação. As bandas de música do 10° Regimento de Infantaria e do 1° Batalhão da Brigada Militar executaram marchas fúnebres durante o ato religioso. Findo este, foi o ataúde retirado da alterosa eça* e, à mão, conduzido até a travessa 1° de Março, no Campo da Redenção, sendo as alças muito disputadas. Chegando ali, foi ele colocado em carro de 1ª classe da irmandade de São Miguel e Almas e transportado para o cemitério.

* nome antigo do estrado onde se colocavam caixões para serem os corpos velados.

(Correio do Povo de 9 de setembro de 1911)

O livro: capas da 1ª e da 2ª edição


A foto batida logo após as mortes dos anarquistas


Stefan, Pablo, Alexander e Feodor

Da esquerda para a direita:

Stefan Sedoreski(alfaiate);
Pablo Pavlowsky (pedreiro);
Alexander Grauberger (açougueiro);
Feodor (operário).

Na madrugada de 8 do corrente, depois de sepultados os quatro cadáveres, penetraram no cemitério, apressadamente, dois indivíduos, um, loiro e baixo; o outro, moreno e alto - e dirigiram-se para o local onde o coveiro já terminava seu mister, lançando a ultima pá de terra sobre os corpos dos protagonistas da tragédia da rua dos Andradas. Ali chegados perguntaram ao coveiro se não lhes era possível ver os cadáveres. Recebendo resposta negativa, um deles segredou ao outro: “Está tudo perdido! Não arranjamos mais nada!”. E retiraram-se. No mesmo dia, à tarde, apareceu no campo santo a mãe de Alexander, que depositou, sobre a sepultura deste, uma grinalda de flores naturais. Ia ela sozinha, e trajava de preto. No dia seguinte, pela manhã, penetraram no cemitério dois indivíduos, um dos quais, o moreno foi reconhecido como sendo um dos que ali haviam estado na madrugada do enterramento e tomaram a direção do local em que se acham sepultados os assassinos de Alcides Brum. Após a retirada desses dois indivíduos, verificou-se que as quatro sepulturas se achavam cobertas de flores colhidas ali mesmo, nos canteiros do cemitério. À noite desse dia, ainda se conservavam sobre as sepulturas, somente aquelas flores. Na manhã seguinte, porém, novas flores foram vistas sobre a terra ainda fresca das covas; e diversos pés de simbólicas sempre-vivas, arrancados de outras sepulturas, estavam plantados ao redor das mesmas, em renques simétricos. As autoridades policiais, tendo conhecimento desse fato, tomaram providências tendentes a averiguar se se tratava, no caso, de parentes que ali fossem levar o preito de sua saudade, ou de indivíduos, sobre os quais pudesse pesar a suspeita de conivência no crime. Quanto ao resultado de tais pesquisas, a polícia tem mantido absoluta reserva.

Correio do Povo de 19.09.1911


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