sábado, 17 de maio de 2014

O linguiceiro da Rua do Arvoredo



Foto dos atores de uma peça teatral sobre os crimes.
(Na verdade, José Ramos não era o linguiceiro*
e, sim, o mentor dos crimes.)


Você já ouviu falar no caso do linguiceiro da Rua do Arvoredo?* É uma história antiga, que sobreviveu por anos a fio pela tradição oral e por muito tempo, acreditou-se que se tratava apenas de uma lenda urbana. A história oficial em vão buscou abafar a história, mas a verdade é que a cidade entrou para a galeria dos crimes mais hediondos por causa de um homem, talvez o maior facínora de seu tempo.

Tudo começou em 1863, na provinciana Porto Alegre dos tempos do Segundo Império. Naquele tempo, a capital era a quarta maior do Brasil, com cerca de 20 mil habitantes, 4 mil casas, 18 edifícios públicos e sete igrejas. Foi na cidadela que se encastelava na península central de ruas sem calçamento e cheia de tocas de tatu de escravos fugidos que nasceu o mito de José Ramos e o insuspeito açougueiro (seu cúmplice) que fazia linguiça de restos humanos. Ramos era considerado como um discreto gentil-homem, elegante e viajado, como se saísse das páginas de um romance de Alexandre Herculano. Era visto em casas de ópera da cidade e consta que tinha excelente gosto musical. Na verdade, ele foi uma espécie de inspetor de polícia (mais tarde informante) que foi obrigado a fugir de Santa Catarina após matar o próprio pai (parricídio).

Em Porto Alegre, o assassino se tornou um homem da lei. Foi quando ele conheceu Catarina Palse, magiar (húngara) descendente de alemães, nascida na Transilvânia (é verdade!). Casada, viu o marido se enforcar durante a viagem ao Brasil (1857). Essa mulher de personalidade enjeitada conheceu o nobre José Ramos. O amor bandido de ambos deu origem à lenda dos carniceiros.

As primeiras vítimas - sempre gente de fora - eram fisgadas por Catarina no Beco da Ópera (hoje a Rua Uruguai, no coração de Porto Alegre). Atraídos pelos dotes físicos (?) da mulher, eles iam para o cadafalso por um trajeto obscuro de ladeiras, do velho Beco do Poço até a Rua da Igreja (hoje Duque de Caxias), até a casa dele - um sobrado que ficava atrás da antiga Matriz, na Rua do Arvoredo, hoje Fernando Machado. Ali ocorreu o primeiro latrocínio, segundo registros da época. Pior que isso, nos fundos da Igreja da Matriz (onde hoje resiste bravamente a Catedral) ficava o cemitério da cidade. Como a chuva amiúde lavava o terreno, não era raro encontrar fêmures e caveiras rolando sorridentes pela Rua do Arvoredo. Como ninguém queria alugar aquela casa, Ramos e Catarina se mudaram para lá, transformando aquele pardieiro refugado pela sociedade no seu ninho de amor e lascívia. Era ali, naquele ambiente íntimo, que eles matavam as suas vítimas, com requintes de crueldade... Com técnica refinada, cada corpo era degolado, esquartejado, descarnado e cortado com capricho e em fatia, para serem acondicionados em baús. Para o trabalho, o açougueiro contava com a ajuda de Carlos Claussner — que pouco tempo depois seria assassinado pelo comparsa. Com o moedor, ele fazia guisado da carne e preparava o produto, oferecido para toda a cidade em seu açougue da Rua da Ponte (hoje Riachuelo, fundos da Igreja Nossa Senhora das Dores).

Consta que a linguiça de Claussner era muito apreciada. Desbaratado o caso em 1864, Ramos foi condenado à forca e Cataria morreu louca num hospício.* A despeito de todo o escândalo, os crimes da Rua do Arvoredo foram propositalmente ignorados pela imprensa de época. Em sua pesquisa, porém, Décio Freitas constatou que a história repercutiu em jornais da França e do Uruguai! José Ramos ganhou a fama do terror de Porto Alegre, no século XIX. Décio Freitas faz nesse livro uma pesquisa histórica sobre a realidade do episódio, apesar de conter muitas lacunas, uma vez que dos três processos realmente movidos, dois desapareceram e claramente se vê desejo de abafar o caso, pelo inquérito transcrito que, em nenhum momento menciona o fato das vítimas serem transformadas em linguiças, mesmo quando Catarina afirma isso categoricamente.

Verdades sobre o fato:

* Atual Rua Fernando Machado

* Havia um indivíduo (Claussner), na cidade, amigo de José Ramos, que, por ser linguiceiro, descartava carcaças de animais e sabia dos crimes e, por isso, foi assassinado por José.

* Na verdade, José Ramos não foi condenado à forca, mas, sim, à prisão perpétua. Cumpria pena no Presídio Central, quando, doente, foi transferido para a Santa Casa onde acabou falecendo, em 1893, cego e leproso.

Textos do livro “O Maior Crime da Terra – O Açougue Humano da Rua do Arvoredo”, de Décio Freitas, Editora Sulina – 1996*

* Exemplar autografado pelo autor na Feira do Livro de 1996


Rua do Arvoredo-1860

Sete horas e trinta da manhã de 1° de agosto de 1893, na Santa Casa de Misericórdia, hospital para pobres na cidade de Nossa Senhora da Madre de Deus de Porto Alegre. Num catre imundo, um homem agoniza. Seu rosto, quase inteiramente comido pelo “mal-de-lázaro”, causa repugnância. Quando o padre lhe dá a extrema-unção, nada vê porque está completamente cego. Suas últimas palavras:

 Deus me fará justiça!

Em junho de 1877, cumprida a sua pena, Catarina é posta em liberdade, quando já completou 41 anos de idade. No ano de 1891, Catarina morre e é enterrada como indigentes no cemitério da Santa Casa.

A confissão de Catarina Palse

Na confissão de Catarina, não há referência à sua condição de mucker. No mais, o que ela dirá ao chefe de Polícia coincide, mais ou menos, com o que consta da confissão escrita, salvo algumas diferenças menores.

Explica Catarina sua decisão de confessar tudo:

 Tenho vivido na abominação do pecado e do crime. Meu corpo está perdido, mas minha alma ainda pode ser salva.

Conta que tudo começou quando foram viver na casa da Rua do Arvoredo:

 Uma noite, Ramos me disse que nada queria esconder de mim. O destino quisera que ele matasse e se apossasse dos haveres de suas vítimas. Teria que matar muitas pessoas. Os mortos não precisavam de dinheiro ou riqueza, enquanto que nós dois tínhamos direito a isso devido aos nossos sofrimentos. Explicou que até então matara porque tinha medo da forca, mas agora já não tinha medo, graças a Claussner.

 Qual era a amizade entre os dois? – pergunta Campello (chefe de Polícia).

 Fizeram-se amigos desde que Claussner se estabeleceu com açougue na Rua da Ponte. Quase todas as noites, Ramos ia visitá-lo no açougue, onde ficavam juntos por muito tempo. Às vezes brigavam e nessas ocasiões, Ramos voltava arreliado para casa. Volta e meia, Ramos surrava Claussner. Quando isso acontecia, ficava muito triste e até chorava, repetindo quer não podia viver sem a amizade de Claussner. Certa noite, voltou muito alegre, dizendo que Claussner descobrira uma maneira de impedir que os assassinatos viessem a ser provados.

 Que maneira era essa?

 As vítimas seriam esquartejadas e sua carne usada por Claussner para fabricar linguiça. Os cadáveres assim desapareceriam e nunca se poderia provar nada.

 Esses planos sinistros não a horrorizaram?

 Tudo o que eu queria era que ele fosse feliz. Nunca conheci pessoa tão feliz como ele depois que matava. Eu achava que ninguém tinha o direito de lha arrebatar essa felicidade.

Resumo dos fatos

Os crimes da Rua do Arvoredo

Em 18 de abril de 1864, a polícia de Porto Alegre deparou-se com uma cena de crime horripilante: no porão da casa de José Ramos e Catharina Palse, na Rua do Arvoredo, estavam enterrados os pedaços de um corpo humano, já em avançado estado de decomposição. O cadáver havia sido retalhado, com a cabeça e membros separados do tronco, e este, por sua vez, repartido em vários pedaços. A vítima foi identificada: era o alemão Carlos Claussner, dono de um açougue na Rua da Ponte. Ao examinar um poço desativado, no terreno dos fundos da casa, a polícia encontrou os corpos do taverneiro Januário Martins Ramos da Silva e de seu caixeiro, José Ignacio de Souza Ávila, de apenas 14 anos, igualmente esquartejados. As buscas no poço prosseguiram, tendo a polícia encontrado ainda o cadáver de um cachorrinho preto, rasgado da garganta ao ventre. A motivação dos crimes era evidente: Ramos e Palse mataram para se apossar dos bens de suas vítimas, com exceção do caixeiro e do cãozinho, que foram mortos como queima de arquivo. Os crimes causaram repugnância, especialmente depois que uma série de boatos davam conta de que o casal assassino fazia linguiça com a carne das vitimas e vendia o produto num movimentado açougue de Porto Alegre. A polêmica sobre a veracidade da linguiça de carne humana até hoje divide os gaúchos. 



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