segunda-feira, 5 de maio de 2014

Século do Progresso

(A importância do revólver)


Zé Pretinho, grande malandro do Rio de Janeiro, é duas vezes mais valente do que Germano Augusto e Kid Pepe juntos. Orgulha-se de ser um malandro maior. No jogo ou lá em que seja, só esvazia bolsos de quem os têm cheios, respeita mulheres, velhos, crianças, gente de família, não compra briga com os fracos. Prefere enfrentar policiais armados, malandros temidos como ele, valentes de verdade, a cometer uma covardia. Pelo menos é o se diz. E o que Zé Pretinho diz ninguém duvida.

Uma vez, por mal-entendido, Noel Rosa diz para Zé Pretinho:

- Eu já te disse que não quero conversa!

Zé Pretinho fica furioso, levanta o braço, desfere um tapa que vai atirar Noel longe, quase no colo de Odete Amaral. Uns vão segurar Zé Pretinho, temendo que ele não pare por aqui. Outros acodem Noel. Só depois o agressor saberá o motivo da zanga do agredido, a intromissão indevida de Kid Pepe num samba que ele lhe dera de presente. Logo Kid Pepe!

Noel Rosa faz um samba dando um recado ao agressor. É do que fala Século do Progresso, o recado de Noel a Zé Pretinho e a todos os valentes.




A noite estava estrelada
Quando a roda se formou
A lua veio atrasada
E o samba começou
Um tiro a pouca distância
No espaço, forte, ecoou
Mas ninguém deu importância
E o samba continuou.

Entretanto ali perto
Morria de um tiro certo
Um valente muito sério
Professor dos desacatos
Que ensinava aos pacatos
O rumo do cemitério.

Chegou alguém apressado
Naquele samba animado
Que cantando assim dizia:
“No século do progresso
O revólver teve ingresso
Para acabar com a valentia.”



Observação: Kid Pepe é o “co-autor” de O orvalho vem caindo”, de 1933. Ele praticamente se impôs a Noel Rosa, e vivia ameaçando Noel a lhe dar outras parcerias, até que Zé Pretinho (o agressor de Noel) o ameaçou com um revólver para que parasse de incomodar o poeta de Vila Isabel.


(Do livro “Noel Rosa, uma biografia”, de João Máximo e Carlos Didier)


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