terça-feira, 13 de maio de 2014

Histórias do Brasil

       


Londres, anos 40. Paschoal Carlos Magno era o cônsul brasileiro em Liverpool, mas não perdia teatro ou concerto na capital britânica, fustigada pela Lufwaffe de Herman Goering e pelas bombas V-1 (que invariavelmente caíam na Mancha), criadas pelo genial Werner Braun, mais tarde pai, avô e bisavô do programa espacial americano.
Certa ocasião, durante um concerto sinfônico regido por Eugene Ormandy, uma sirene estremeceu o teatro, anunciando ataque aéreo dos alemães. Dessa vez, as bombas eram as primeiras e terrivelmente eficazes V-2 alemãs, precursoras até inocentes dos fantásticos mísseis atuais.
Ormandy, sem se afastar do pódio, voltou-se gravemente para a plateia e para seus músicos e disse com serenidade:
- Os senhores têm plena liberdade de procurar os abrigos antiaéreos.
 Aguardou alguns instantes, vendo que ninguém se movia, declarou com firmeza:
- As bombas passam.
E regeu a Nona Sinfonia do maestro alemão Ludwig van Beethoven.

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Walter Moreira Salles era embaixador em Washington, meados dos aos 50. Baile na Embaixada Brasileira. Rezando pelo catecismo do protocolo, antes das danças, a orquestra deflagrou o Hino Nacional. Atacada a introdução (conhecida como laranja da China), um diplomata americano, supondo tratar-se de um animado maxixe brasileiro, já que não reconheceu os acordes do hino propriamente dito, levantou-se, tomou a embaixatriz Elisinha Moreira Salles nos braços que, perplexa, viu-se a acompanhar passos entusiasmados pelo salão. Moreira Salles, rápido, fez o mesmo: enlaçou a esposa do diplomata e saiu dançando em direção à orquestra onde, entre dentes, mandou o maestro repetir a introdução e parar por aí.
Salvou, de um golpe, a face do outro, o protocolo e a honra pátria.

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Outra conversa séria, presenciada pelo Carlinhos de Oliveira, entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes no bar Veloso, berçário do conhecido Garota de Ipanema. Assunto flagrado pelo cronista e que lá ia pelo meio: o que faria os dois se fossem viados.
Declaração final de Vinicius, vitimado por nove casamentos:
- Eu gostaria de ter um homem que me amasse e protegesse.
E disse isso seríssimo.

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Enterro do marido de Clementina de Jesus acompanhado pelo cortejo naturalmente choroso, composto de numeroso contingente de sambistas, inconsoláveis parentes e amigos.
Ao baixarem o caixão do falecido para o seu leito eterno, aproximou-se do túmulo um cidadão de cor, semblante gravíssimo e, após rápida verificação, voltou-se para os circunstantes e anunciou em voz alta:
- 2154!

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Biquinha, jogador de vôlei na praia de Copacabana, defronte ao famoso Bar do Carnera, esquina de Djalma Ulrich, ouvia a seguinte notícia:
- Tim fraturou o perônio.
Comentou:
- Puta merda! Que cabeçada!

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O mesmo Biquinha pediu um emprego ao Caruso, dono de várias salas de projeção no Rio. Chamavam-no Vivacidade Caruso. Resposta:
- Você não conhece o métier, mas, em todo caso, fale com minha secretária.
Biquinha:
- Me apresenta ele e deixa comigo!

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Um gerente de banco em Ipanema recusando um cheque de um contumaz adiador de fundos:
- O senhor que desculpe, mas só aceitamos cheques visados.
- Mas os meus cheques já naturalmente visados.

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Redação da revista manchete, nos tempos da rua Frei Caneca. José Carlos Oliveira multiplicava por mil sua rala força de vontade para deixar de fumar, uma luta cotidiana perdida. Raimundo de Magalhães Júnior aconselhou:
- Bala. Substitua esta maldição por bala.
E Carlinhos municiou-se com balas às quais chupava com unção e esperança. Nada, o cigarro vencia. Nos intervalos entre os parágrafos de uma matéria, o pensamento só acudia com sinais da fumaça mecânica. O Raimundo e mais um conselho antitabagista.
- Cachimbo. Cachimbo é ótimo.
No fim de dois meses, horrorizado e vencido, Carlinhos apurou que tinha três vícios: cigarro, bala e cachimbo.

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O ilustre e famoso advogado Stelio Belchior me descreveu assim o sexo oral praticado por homem em senhora, o popular minette.
- Pode ser uma medida preliminar, uma petição inicial, um recurso extraordinário ou um agravo de instrumento para subir o recurso.

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O poeta Olegário Mariano, padrinho de batismo pela milésima vez, suportava a arenga latina do padre quando, num dado momento, o pároco lhe perguntou: menino ou menina?
Olegário, apanhado d surpresa, não teve outro recurso a não ser sungar a camisola do bebê que, naquelas alturas da vida, era desprovido de sexo aparente. Afastou os panos que o separavam a revelação e, apurados os fatos, declarou:
- Se não me falha a memória, menina.



Texto do livro “300 Histórias do Brasil Pequenas Vergonhas”,
de Marcos de Vasconcellos.
L&PM


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Marcos de Vasconcellos, jornalista e arquiteto mineiro radicado no Rio de Janeiro. Como cronista dos jornais O Globo, Jornal do Brasil e Tribuna da Imprensa, Vasconcellos foi um dos mais ferinos críticos da caótica organização urbana do Rio de Janeiro. Vasconcellos morreu no dia 12 de janeiro de 1989, aos 55 anos, de câncer, no Rio de Janeiro.


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