quarta-feira, 21 de maio de 2014

Você sempre poderá mudar o seu destino



Durante os trinta anos em que lecionei, mais do que dar aulas, dei exemplos de vida. Lecionei em duas escolas públicas e uma particular simultaneamente. Dizia que havia três formas de uma pessoa vencer e, consequentemente, ganhar dinheiro na vida: uma, apostando na loteria e ganhando sozinho um prêmio fantástico; outra, descobrir que era o único herdeiro de um tio rico e desconhecido, como acontece muito nas novelas; e, por último, estudar. Perguntava aos alunos qual era a hipótese mais lógica. A resposta todos vocês já sabem.

À medida em que eu ia envelhecendo, ia encontrando meus ex-alunos, ia encontrando ganhadores e perdedores. Encontrei alunos nas mais variadas profissões liberais. A maioria ganhando muito mais do que eu, e em profissões muito mais importantes do que a minha. Isso me deixava imensamente feliz. Mas um exemplo deixou-me surpreendido.

Numa aula noturna de uma Escola Municipal, alguém bateu na minha porta. Interrompi a aula e fui atender. Deparei, na minha frente, com um jovem vestido com uma farda verde-oliva, com as insígnias de terceiro sargento do Exército, perfilado, dando-me continência, visivelmente emocionado. Olhei-o e recordei-me de quem se tratava:

 Não pode ser, logo você, Airton! Como você conseguiu isso?

 Por um filme que o senhor passou na sala de audiovisual.

 Que filme, cara, não estou lembrando...

 “A Força do Destino”. Esse filme mudou a minha vida.

Lembrei, então, do filme que, inclusive em mim, deixou grandes impressões.

Nos anos 80, eu fui um professor pioneiro, nas escolas municipais, a utilizar o videocassete em sala de aula. Eu havia comprado um vídeo Betamax, julgando ser o melhor e que logo saiu de estoque por ter uma tecnologia Sony exclusiva, e uma televisão de 14 polegadas. Uma vez por mês, eu escolhia um filme de impacto psicológico e com uma temática de vencedor para passar aos alunos. Escolhi o filme “A força do destino” (An officer and a gentleman) com Richard Gere. O filme, para quem não o assistiu, trata de um jovem desajustado, morando com um pai putanheiro, que resolve ser um oficial aviador da Marinha Americana. Apesar de ser um jovem saudável e bom desportista, ele é um grande trambiqueiro, ganhando dinheiro num comércio ilegal dentro da Academia. É descoberto por um sargento durão que resolve fazer tudo para que ele peça desligamento voluntário. Aplica nele castigos físicos cruéis para mandá-lo embora, quando o personagem, na passagem mais dramática do filme, diz:

 Eu não tenho nada! Eu não tenho ninguém! Eu não tenho para onde ir!

Recebe mais uma chance e se torna oficial.

Quando o aluno Airton começou a me dar problemas em sala de aula, consultei a sua ficha de avaliação psicológica, e vi que ele tinha um pai autoritário e violento, que lhe aplicava algumas surras constantemente. No filme, ele se viu na figura do personagem e de sua família, percebendo que a vida poderia lhe dar uma chance, e ele tinha que aproveitá-la.

Terminou o primeiro grau. Foi estudar na Escola Técnica Parobé, uma das melhores de Porto Alegre. Quando foi servir, já havia praticamente terminado o segundo grau, e já sabia o que queria ser.

Ele me abraçou. Foi embora, me pedindo uma cópia do filme.

A partir daquela noite, eu já não fui mais o mesmo. Sabia que havia mudado uma vida e a minha vida seria um pouco mais feliz.

*****

Obs.: O DVD desse filme faz parte da minha coleção particular, Inclusive o filme deu o Oscar de melhor ator coadjuvante a Louis Gosset Jr, que faz, no filme, o sargento durão que vai enquadrar e corrigir a conduta moral do candidato a oficial. 


A capa do DVD do filme

Nenhum comentário:

Postar um comentário